Como seria o mundo se os Beatles não tivessem existido? A história teria seguido seu curso de modo que estaríamos exatamente onde estamos, pensando e fazendo habitualmente o de sempre? O escritor angolano José Eduardo Agualusa afirmou em uma de suas colunas recentes, publicadas às segundas-feiras em “O Globo”, que a beleza – matéria-prima da música dos Beatles – age silenciosa e discretamente, ao longo do tempo, no interior de cada indivíduo; por isso, o mundo não teria sofrido grandes tremores se não tivesse abrigado os garotos de Liverpool, o argentino Borges, o brasileiro Machado de Assis e tantos que encantaram gerações de seres humanos.

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Embora seja muito difícil discordar dos escritos de Agualusa, textos recheados de sensibilidade e serenidade crítica, é possível imaginar que o mundo seria, sim, bem diferente se não tivessem passado por aqui John, Paul, George e Ringo. Os Beatles não foram só a beleza de suas canções, suas melodias que estremeciam corações e embalavam multidões; o quarteto inglês mobilizou pela música diversos sentimentos, inspirando sensos práticos, definindo estratégias geracionais. A incrível década de 1960, cuja base é de insurreições e desejos sinceros de alterar a prosa e a poesia da realidade, não teria produzido os impactos conhecidos se não fossem os milhões de jovens e adultos que amavam (e ainda amam!) os Beatles e os Rolling Stones.

No filme “Yesterday”, dirigido, em 2019, por Danny Boyle, há um exercício para pensar um mundo sem os Beatles. Roteirizado por Richard Curtis, o longa-metragem conta a história de Jack, um músico que não consegue emplacar suas canções e se vê obrigado a trabalhar num mercado atacadista. Quando pode, canta e toca para meia dúzia de amigos, apresentando-lhes suas pouco comoventes composições. Um dia, sem mais nem menos (e é por esses instantes “inexplicáveis” que a arte se justifica), o planeta sofre um apagão geral de 12 segundos, em meio ao qual Jack é atropelado por um ônibus, quando voltava para casa em sua bicicleta. Nos dias seguintes, após uma série de acontecimentos “estranhos”, Jack percebe que ninguém se lembra dos Beatles. Nem o Google sabe quem foram os reis do iê-iê-iê. Jack, então, resolve apropriar-se das composições dos Beatles e tocá-las como se suas fossem. A partir de um roteiro despretensioso, daquilo que se costuma chamar de “comédia romântica”, o filme sugere grandes reflexões.

Ao entrar em contato com a música dos Beatles, jovens do século 21 se revelam tão extasiados por “Help!”, “I want to hold your hand”, “Ticket to ride”, “Here comes the sun” ou “Let it be” quanto a geração de jovens dos anos 1960. A beleza, nesse sentido, revela-se atemporal, o que, em grande medida, aponta para as dimensões universais do gênero humano. A predisposição para reconhecer o que há de melhor em nossa capacidade de emocionar pula da pré-história a futuros imaginados com a mesma desenvoltura e intensidade – e é nisso que se depositam as expectativas de mudar o mundo e transformá-lo num bom lugar, fraterno e aconchegante.

Com ou sem os Beatles, entretanto, haverá sempre aqueles que se indispõem com o tempo histórico e agridem covardemente a inteligência. A barbárie, como reverso da beleza, age despudorada e imbecilmente, atribuindo (também) aos Beatles a responsabilidade pelo mal-estar da modernidade, acusando-os de satanistas, pervertidos e fantoches frankfurtianos de Theodor. W. Adorno. Aliás, quem faz isso poderia, ao menos, estudar o conceito de “dialética negativa” para não o distorcer nem passar vergonha diante das indiscretas câmeras do mundo virtual. A boa filosofia, nessas horas, chora copiosamente...

Na realidade sensível, em que não contam teorias conspiratórias nem se dá crédito a lunáticos, os Beatles seguem em frente, décadas depois de encerradas suas atividades. Seus álbuns musicais fazem parte do patrimônio cultural da humanidade, porque a embelezam e lhe emprestam pomposos adornos para sua incansável esperança.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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