A volta de Alberto, o anarquista
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de março de 2019
Marco A. Rossi 
É sempre oportuno recordar personagens que fizeram história no mundo da ficção. Se a vida imita a arte (e essa é uma sentença de fortes doses de veracidade), é razoável afirmar que a arte dá brilho, graça e leveza à vida. Torna-se menos penoso encarar o dia a dia em companhia de frutos do gênio humano. O poeta Ferreira Gullar costumava dizer que a arte existe porque a vida não basta – e ele estava recheado de razão.
Há várias décadas, para ilustrar suas crônicas publicadas em jornal, o saudoso Leandro Konder, filósofo marxista que inspirou muitas gerações de pensadores e militantes da vida, criou Alberto, o sapateiro anarquista. Konder o fez íntegro, rebelde e radical. Alberto servia-lhe como um “alter ego”, por meio do qual podia se expressar sobre temas que escapavam à ordem prática dos fatos e circunstâncias. A radicalidade do anarquista liberava seu criador da pesada responsabilidade referente a ideias e proposições. Graças à imaginação artística de Leandro Konder, os leitores tinham a chance de olhar o mundo pelos olhos do Alberto, senti-lo noutros sabores, ouvir o que lhe era peculiar. Fazia-se possível tatear outras formas, antecipar-se a diferentes movimentos da realidade.
Leandro Konder, cuja vasta obra enriqueceu o debate público por mais de 50 anos no Brasil, admirava em Alberto a habilidade de jamais mensurar paixões e valores. O modesto sapateiro era anarquista em suas convicções políticas e também na maneira livre como levava a vida. Não negociava sonhos e não se deixava enganar pelos modismos que surgem a toda hora no campo das ideias e predileções filosóficas. Alberto não levaria a sério a atual onda, na internet, de “intelectuais” (as aspas são pura medida de prudência conceitual). O fato é que seu aguçado senso histórico rejeitaria as palavras fáceis, análises vis e simplificações da realidade agora costumeiras nos grupos familiares de WhatsApp e nas linhas do tempo do Facebook e do Twitter. Alberto consideraria o Brasil dos ódios, mitos, youtubers e gurus contemporâneos algo de extremo mau gosto, um atentado contra a inteligência humana.
As belas criações humanas, quando ultrapassam a barreira do tempo e chegam ao coração de novas gerações, transformam-se em patrimônio cultural. Por isso, sem que se ouvisse dele qualquer reclamação ou cobrança, o velho anarquista de Leandro Konder aceitou frequentar a cidade futura. Provavelmente, em face da diferença de fuso horário intelectual entre o cronista que o criou e o que ora o tem em excelente companhia, o Alberto de hoje não terá o viço e o gingado daquele de outrora: a ele faltará, sem dúvida, o tempero crítico e ao mesmo tempo poético que só um gigante como Leandro Konder poderia lhe destinar. Ainda assim, Alberto continua a ter o que dizer. De muitas maneiras, o sapateiro anarquista tem vida própria, é livre-pensador, não necessita de tutelas nem comandos. Sobrevoará a cidade futura com elegante autonomia, como só os mistérios da arte são capazes de fazer.
Alberto leu o elogio ao liberalismo de Vargas Llosa publicado aqui na semana passada. Franziu a testa e lembrou que o escritor peruano é um fã do neoliberalismo atroz de Reagan e Thatcher, um cruzado contra a independência catalã e escocesa, um ardiloso liberista avesso às adultas conquistas da social-democracia em tempo de falangismo mercantil. Logo em seguida, arregalou os olhos e relaxou os ombros, destacando que, numa era de extrema dificuldade para estabelecer diálogos e cultivar interlocuções, admitir que haja pontos fortes nas ideias e nas falas dos adversários é sinal de maturidade de espíritos democráticos. Alberto, um anarquista convicto, sabe da democracia muito mais do que aqueles que só ouvem os ecos da própria voz e só veem a sombra do corpo que carregam por aí, de um lado a outro, em busca de motivos que reafirmem o que, supostamente, já está desvendado.
Seja bem-vindo, nobre anarquista!
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


