Uma rápida consulta ao verbete “fome”, no Dicionário Houaiss, revela as múltiplas dimensões da palavra. De “sensação que traduz o desejo” a “carência alimentar”, a ideia de fome representa, sob vários ângulos, aquilo que não está saciado e, ao mesmo tempo, uma forte predisposição a encontrar lugar para algo tido como imprescindível. Tem fome quem tem urgência de responder aos desejos da carne ou da alma.

Imagem ilustrativa da imagem A vida como a vida quer
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O médico Josué Apolônio de Castro (1908-1973) dissecou a questão da fome no Brasil em estudos que se tornaram referência em todo o mundo. Para ele, a fome era a expressão biológica de um fenômeno socioeconômico do subdesenvolvimento. Em suma, tratava-se de uma vergonha que condenava à miséria do corpo e à aniquilação do espírito uma multidão subjugada por enorme ostentação material de uma minoria de privilegiados e detentores do poder. A geopolítica da fome, insistia o grande cientista e intelectual recifense, é produto de variados processos sociais de exploração e desumanização. Para mudar essa cartografia tão cruel continua sendo necessário substituir as lentes com as quais se observa o mundo.

Quando uma canção bem popular do rock brasileiro pergunta “Você tem fome de quê?”, a questão logo se apresenta de modo muito mais complexo. Na estrofe seguinte, canta-se: “A gente não quer só comida; a gente quer bebida, diversão e arte”. Mais tarde, uma súplica: “A gente quer a vida, como a vida quer”. Os músicos dos Titãs, na década de 1980, entenderam o espírito de uma época que se confunde com toda a história do Brasil e se reproduz na cidade e no campo tal qual... a fome. Os mapas para desvendar o itinerário da fome, portanto, exigem leitura honesta e realista. A fome no Brasil não pode nem nunca poderá ser, mesmo que um dia se resuma a uma triste lembrança, alvo de bravatas ou delírios ideológicos que ajudam a perpetuar, por inanição ou ignorância, a barbárie.

Imbuído do mesmo “espírito de época” que iluminava o trabalho dos jovens Titãs, o sociólogo Herbert de Sousa (1935-1997) mobilizou o Brasil dos anos 80 e 90 do século passado em favor da solidariedade a quem tinha fome. Criou campanhas e colaborou incansavelmente para sensibilizar os brasileiros em relação a um dos mais graves problemas estruturais do País. A fome, dizia Betinho, não podia esperar. De sua anulação dependiam o futuro da democracia e a coexistência humana num pedaço de mundo marcado por toda sorte de violência contra os mais pobres, silenciados em suas versões negras, indígenas, femininas, LGBTs. Houve e há uma gigantesca margem social que passa fome no Brasil: fome de comida, de bebida, de diversão e de arte. Fome da carne. Fome da alma. Tal como nos estudos quase seculares de Josué de Castro, a fome continua a ser uma enorme vergonha, um dispositivo político e econômico que impede a democracia e dificulta a formação de uma tessitura social capaz de espelhar a diversidade que lhe é, de fato, constitutiva.

Há quem diga que não existe fome no Brasil, que por aqui só passa “necessidade” quem quer. Para agravar o desatino, associa-se a superação da fome à obtenção de “conhecimento”. Num país que massacra a ciência, persegue os educadores, faz sucessivas odes ao anti-intelectualismo e despreza as artes, isso soa deboche. Pena não ser. É estratégia elitista de atraso e miséria, semelhante àquela que desenha os mapas da fome e neles insere milhões de cidadãos sem direito a ter uma vida como a própria vida quer.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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