A vida como a vida quer
“A fome no Brasil não pode nem nunca poderá ser, mesmo que um dia se resuma a uma triste lembrança, alvo de bravatas ou delírios ideológicos”
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quinta-feira, 25 de julho de 2019
“A fome no Brasil não pode nem nunca poderá ser, mesmo que um dia se resuma a uma triste lembrança, alvo de bravatas ou delírios ideológicos”
Marco A. Rossi 
Uma rápida consulta ao verbete “fome”, no Dicionário Houaiss, revela as múltiplas dimensões da palavra. De “sensação que traduz o desejo” a “carência alimentar”, a ideia de fome representa, sob vários ângulos, aquilo que não está saciado e, ao mesmo tempo, uma forte predisposição a encontrar lugar para algo tido como imprescindível. Tem fome quem tem urgência de responder aos desejos da carne ou da alma.

O médico Josué Apolônio de Castro (1908-1973) dissecou a questão da fome no Brasil em estudos que se tornaram referência em todo o mundo. Para ele, a fome era a expressão biológica de um fenômeno socioeconômico do subdesenvolvimento. Em suma, tratava-se de uma vergonha que condenava à miséria do corpo e à aniquilação do espírito uma multidão subjugada por enorme ostentação material de uma minoria de privilegiados e detentores do poder. A geopolítica da fome, insistia o grande cientista e intelectual recifense, é produto de variados processos sociais de exploração e desumanização. Para mudar essa cartografia tão cruel continua sendo necessário substituir as lentes com as quais se observa o mundo.
Quando uma canção bem popular do rock brasileiro pergunta “Você tem fome de quê?”, a questão logo se apresenta de modo muito mais complexo. Na estrofe seguinte, canta-se: “A gente não quer só comida; a gente quer bebida, diversão e arte”. Mais tarde, uma súplica: “A gente quer a vida, como a vida quer”. Os músicos dos Titãs, na década de 1980, entenderam o espírito de uma época que se confunde com toda a história do Brasil e se reproduz na cidade e no campo tal qual... a fome. Os mapas para desvendar o itinerário da fome, portanto, exigem leitura honesta e realista. A fome no Brasil não pode nem nunca poderá ser, mesmo que um dia se resuma a uma triste lembrança, alvo de bravatas ou delírios ideológicos que ajudam a perpetuar, por inanição ou ignorância, a barbárie.
Imbuído do mesmo “espírito de época” que iluminava o trabalho dos jovens Titãs, o sociólogo Herbert de Sousa (1935-1997) mobilizou o Brasil dos anos 80 e 90 do século passado em favor da solidariedade a quem tinha fome. Criou campanhas e colaborou incansavelmente para sensibilizar os brasileiros em relação a um dos mais graves problemas estruturais do País. A fome, dizia Betinho, não podia esperar. De sua anulação dependiam o futuro da democracia e a coexistência humana num pedaço de mundo marcado por toda sorte de violência contra os mais pobres, silenciados em suas versões negras, indígenas, femininas, LGBTs. Houve e há uma gigantesca margem social que passa fome no Brasil: fome de comida, de bebida, de diversão e de arte. Fome da carne. Fome da alma. Tal como nos estudos quase seculares de Josué de Castro, a fome continua a ser uma enorme vergonha, um dispositivo político e econômico que impede a democracia e dificulta a formação de uma tessitura social capaz de espelhar a diversidade que lhe é, de fato, constitutiva.
Há quem diga que não existe fome no Brasil, que por aqui só passa “necessidade” quem quer. Para agravar o desatino, associa-se a superação da fome à obtenção de “conhecimento”. Num país que massacra a ciência, persegue os educadores, faz sucessivas odes ao anti-intelectualismo e despreza as artes, isso soa deboche. Pena não ser. É estratégia elitista de atraso e miséria, semelhante àquela que desenha os mapas da fome e neles insere milhões de cidadãos sem direito a ter uma vida como a própria vida quer.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


