A veloz sociedade da frustração
“Com exigências difíceis e numerosas, os indivíduos passaram a correr para alcançar o mundo, tornando-se indiferentes à realidade comum”
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quinta-feira, 08 de agosto de 2019
“Com exigências difíceis e numerosas, os indivíduos passaram a correr para alcançar o mundo, tornando-se indiferentes à realidade comum”
Marco A. Rossi 
A sensação de que o tempo é cada vez mais veloz não é ilusória. Alguns podem negar tal afirmação, insistindo que sessenta segundos serão sempre um minuto, sessenta minutos não passam de uma hora, vinte e quatro horas separam dois crepúsculos. Nada mais. Embora plácida, a objeção carece de sensibilidade.

O sociólogo alemão Hartmut Rosa, em seu livro “Aceleração”, discute as transformações da estrutura temporal nas sociedades modernas. O intenso processo de individualização e diferenciação social que ocorre desde o século 18 no capitalismo global limitou a ética comunitária, abrindo espaços para sujeitos progressivamente mais autônomos e competitivos. Com exigências difíceis e numerosas, os indivíduos passaram a correr para alcançar o mundo, tornando-se indiferentes à realidade comum – em muitos casos, criaram repulsa pelos outros e concentraram esforços em erguer apenas seu próprio reino de fantasias.
O tempo acelerado, contudo, ruiu a crença no sucesso ilimitado a partir de “força de vontade” e “foco no objetivo”. Hoje, garante Hartmut Rosa, a dinâmica do mundo – mais veloz e furioso do que nunca! – exige que se faça mais, muito mais, sempre mais, para que tudo, na melhor das hipóteses, continue exatamente onde está. Assim, trabalha-se com muito mais empenho, para manter o emprego e assegurar o salário. No próximo período, muitíssimo mais será realizado, e cada sujeito, se tudo der certo, continuará somando tristezas e atribuições, desfalecendo-se diariamente e ganhando a mesma coisa (receber menos também está no cardápio de possibilidades).
O núcleo dessa estabilidade tem dois polos: de um lado, o aumento contínuo da compulsão pelo crescimento econômico, do adensamento das inovações e, é claro, da aceleração temporal; do outro, a hipercompetitividade que mantém cabeças ocupadas (e iludidas), corações domesticados e utopias congeladas. As mudanças devem ser vertiginosas, o grau de exigências sobre os seres humanos tem de ser cada vez mais ácido, as transformações técnicas precisam romper diariamente a barreira da sensatez – e a vida das pessoas, não obstante em pleno movimento, permanecerá sem bons horizontes. Essa, segundo Rosa, é a “sociedade da aceleração”, na qual não há mais tempo para nada, nem para ganhar, nem para perder.
Existiriam alternativas a essa lógica destrutiva do tempo insaciável? Contra a velocidade da desumanização haveria contrapontos capazes de humanizar, de fato, as relações sociais?
Hartmut Rosa, em outra bela obra, “Ressonância”, aposta que se deve ser sensível à ideia de ampliar as “esferas de ressonância” nas culturas contemporâneas. Dessa maneira, aproximações voluntárias entre seres humanos (e entre eles e diversos artefatos) podem propiciar um “outro” à alienação, combatendo os processos de indiferença e repulsa. Em vez de negar o mundo, o indivíduo pode extrair algo dele, numa relação responsiva. A palavra-chave, portanto, é empatia.
Entre as inúmeras predisposições de ressonância existentes, pense-se, por exemplo, nas relações entre o poeta e as palavras, o musicista e as notas musicais, o pintor e o colorido das tintas, o jardineiro e as flores: durante e após esses “enfrentamentos” os afetos são múltiplos, tudo se deixa tocar, e o resultado final é uma realidade completamente nova. A ressonância, como alternativa ao modo acelerado de viver, “pausa” o tempo e fortalece laços, desalienando seus artífices, promovendo encontros duradouros, vagarosos, que sejam habilidosos no combate às infindáveis patologias da sociedade capitalista.
No lugar do “progresso” que mói gente, a comunhão. Em vez da “ordem” que empobrece multidões, a esperança. Isto: “Comunhão e Esperança”. Bela insígnia para uma bandeira de ressonâncias.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


