A política negativa
“De uns tempos para cá, tudo virou política, em seu sentido ideológico mais pobre e burro”
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de junho de 2019
“De uns tempos para cá, tudo virou política, em seu sentido ideológico mais pobre e burro”
Marco A. Rossi 
Embora a dimensão política da experiência humana seja insuperável, torna-se tudo muito chato quando a própria política se institucionaliza e se esforça por rechaçar a maneira espontânea com a qual a sociedade é capaz de se organizar e elaborar juízos ousados a respeito de si mesma. Dito de outro modo: nem tudo cabe na régua da lei e da ordem. Ao se generalizar como “pensamento único”, a política dos oficiais (militares ou não), engessa as ideias e limita o campo da atuação humana. Nada pode ser pior.

De uns tempos para cá, tudo virou política, em seu sentido ideológico mais pobre e burro. Antes de ler um livro, assistir a um filme ou visitar uma exposição artística, sujeitos binários querem saber se o responsável em questão é comunista, globalista ou gayzista. Filhos só irão para a escola se os professores de lá não forem bolcheviques nem fãs de Paulo Freire. (A alucinada cruzada em defesa da legalidade da educação doméstica atravessa como flecha afiada essa indisposição à diversidade, ao convívio democrático, ao lançar-se ao mundo para crescer e viver.)
A situação se deteriora ainda mais nos momentos em que supostos baluartes da moral e dos bons costumes – os quais amam dizer que seu partido é o Brasil – defendem às cegas tudo que alude a seus representantes políticos. Vazamentos bons são aqueles que põem sob suspeita os inimigos; o mesmo expediente é crime de lesa-pátria caso denuncie seus super-heróis e empurrem contra a parede seus mitos e toda a narrativa de “conquistas” catapultadas por um espichado golpe das velhas classes dominantes. Pode-se dizer a mesma coisa sobre nepotismo, atitudes inconstitucionais, fisiologismo entre os poderes, prevaricação judicial, censura acadêmica ou midiática etc. Tudo isso é horrível, mas só se seus protagonistas estiverem do outro lado da pista.
Manifestações de rua (que até bem pouco tempo na tradição direitista era coisa de vagabundo) tornaram-se “marchas cívicas” em prol da nação, das reformas “necessárias”, e contra as ameaças vermelhas e satânicas de esquerdistas imbuídos de destruir o Brasil. Vale o reforço: essa megalomaníaca identificação da parte com o todo, reduzindo o real a visões particulares de mundo, além de fascista, é cínica, uma vez que se sabe inviável em tempos de democracia, pluralismo e paz. O problema, vale também reafirmar, é que os crentes na subsunção do todo às suas partes odeiam os outros, negam a subjetividade que deles discorde, têm obsessão traumática por temas sexuais e não hesitariam recorrer à violência para implementar seu projeto hostil de sociedade. Um rápido e mesmo desatento olhar pela história comprova essa ilação.
Preocupa que os mais jovens venham caindo sistematicamente nessa obscura jornada de política negativa. Desprezado o movimento dialético da realidade, em que bem e mal se ajustam mutuamente no tempo e no espaço, sobram só as ideias de pureza e familiaridade, com as quais a mentalidade conservadora conduz a vida. Aquilo que porventura não corresponda à santidade desse reducionismo quebra tabus e precisa ser combatido – quem não está com o Brasil está contra ele; aqueles que estão à esquerda no espectro político são demoníacos; defensores dos estudos de gênero querem aniquilar a família; intelectuais, sindicalistas e imprensa livre estão pactuados para derrubar o governo e seus consortes; o nazismo é de esquerda; a Sociologia e a Filosofia não servem para nada; a Terra é plana... A lista trágica, infelizmente, não tem fim.
Moral da história: o encontro com uma democracia saudável e inteligente dependerá cada vez mais do fim das polarizações que debocham do bom senso e sonham enterrar o diálogo impresso na ampliação da participação política e na consagração da soberania popular. E, antes que se pergunte “o que é democracia?”, vale o óbvio: “A resposta está na maneira como se encara o que são, dizem e fazem os indivíduos diferentes e distantes”.
Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]


