Depois de uma vida recheada de heroísmos e ativa participação em grandes mudanças sociais, Alberto sabia que a história havia lhe reservado um tempo exclusivo ao lado da solidão. A companhia dos netos, as lembranças quase seculares de sonhos e lutas, o ofício diário no seu “ateliê” de sapatos (ele acreditava fazer arte para os pés), o carinho em gestos e palavras da companheira de várias décadas, nada disso ultrapassava a sensação de náufrago que inundava o coração de Alberto. Ainda assim, a solidão era também uma excelente quinhoeira.

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solidão do amor
| Foto: Shutterstock

Alberto sabia que era só mais um indivíduo quando o assunto era saudade. Ele podia ser mais jovem, mulher, negro, rico, poderoso... A saudade não o deixaria. Olhar para trás e intuir que o que poderia ter sido faz parte do que se é, na alegria ou na tristeza, define algo comum ao gênero humano. E Alberto fazia questão de nunca se desprender de sua humanidade: acreditava em valores universais, que fossem preciosos a gregos, troianos, celtas, tupinambás e zulus, ao mesmo tempo que estava convencido do poder de todas as singularidades culturais.

No tempo que dedicava às ideias, Alberto costumava exercitar sua imaginação sociológica (disponível a quem dela queira fazer uso), cuja tarefa consiste em reunir as partes no todo e descobrir o que há do todo em cada uma das partes. A solidão, sem dúvida, era uma dessas coisas que totalizam a humanidade, unificando-a e, de maneira paradoxal, fragmentando-a. Na velha casa da Vila Brasil, onde nos fundos funcionava uma sapataria em atividade havia muito tempo, vivia um mundo à parte chamado Alberto. Um vasto mundo, como lhe dissera o amigo Drummond de Andrade.

A saudade dos anos de juventude, quando o mundo ainda lhe parecia aberto e repleto de possibilidades, era, em essência, uma espécie de amor. O amor, também um universal, permite aos seres humanos criar redes de conexão entre as partes que compõem o mundo. No presente, essas partes do passado se reconectam via saudade. Ainda que os dias sejam cinzentos e muitos tenham optado por negar o todo e se aprisionar nas partes, o amor que inspira a saudade é a ponte entre a solidão e a liberdade.

Toda vez que Alberto recordava os grandes momentos de sua trajetória, articulava passado e futuro, tornando o presente um bom lugar. A solidão abria seu horizonte e, de forma retumbante, oferecia-lhe o generoso ar fresco da liberdade. Por ter sido sempre um homem livre, em comunhão com seus iguais (as demais partes que o constituíam como indivíduo-mundo), Alberto sabia-se feito de amor. O amor é o que tornava enriquecedora sua experiência na solidão.

Ao cair das tardes, sentado em sua poltrona e acompanhado por uma pequena pilha de livros e uma xícara de chá de jasmim, Alberto revisitava clássicos e alguns contemporâneos. Relia os amigos – entre eles, Boff, Freire, Drummond e Florestan – e admirava muitos desconhecidos. Sob céu estrelado, buscava palavras que o impedissem de se meter naquilo que não conhecesse, confundindo opinião com sapiência, afetação com liberdade, ressentimento com amor. Assim era a solidão de Alberto: um tempo em que ele, a sós com livros e ideias, afastava-se do mundo para entendê-lo melhor. Essa liberdade amorosa do velho sapateiro anarquista mantinha viva a esperança, o maior dos universais.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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