A CIDADE FUTURA -

A invasão comunista

“Os jornais, os canais de TV, as novelas, tudo dominado pelos comunistas. O senhor sabia que os Beatles eram comunistas? Que a ONU é uma confraria de comunistas?”

Dr. Feelgood era um médico peculiar. A loucura, ele estava convencido, era um jeito bem moderno de separar os “úteis” dos “inúteis”. Para muito além de um diagnóstico profissional, afirmar que alguém é louco significa separar e classificar, apontando aptos e inaptos para a doce vida em sociedade.  

A invasão comunista
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Nos últimos anos, Dr. Feelgood concentrara suas interrogações num único paciente. Ele não era interno de manicômio (uma espécie de exílio da razão), trabalhava, tinha família e levava uma vida “normal”. De uns tempos para cá, envolvera-se numa batalha particular: lutar contra comunistas imaginários. Caçá-los e reduzi-los a pó – a obsessão do indecifrável paciente do Dr. Feelgood era o núcleo de estabilidade de sua metáfora delirante.  




Dr. Feelgood, sempre interessado em ouvi-lo, deu início ao bate-papo de todas as quintas-feiras. 


- Como está hoje, meu caro?  


- Estou eufórico, doutor. Os comunistas estão cercados. Agora temos um governo disposto a destruí-los. Em pouquíssimo tempo, estaremos livres dessa raça demoníaca.  


A estratégia do Dr. Feelgood era simples: dar trela e ver até onde o delírio chegava. As contradições de seu paciente eram recorrentes. Ele passava do amor ao ódio sem motivo algum. Velhos ídolos se transformavam em desafetos por quase nada. Quando tudo lhe fugia ao controle, apelava para pecados, castigos e premonições.  


- E por que os comunistas devem ser exterminados, meu caro?  


- Tudo de ruim no mundo é culpa deles. Eles invadiram as escolas e universidades, lotearam a imprensa, infiltraram-se na cultura...  


- Sobrou algo?  


- Quase nada. Eu vejo comunistas em toda parte, doutor. O senhor viu Bacurau? Eu não vi porque sei que é coisa de comunista. Também não vou ao teatro. Só tem comunista lá. Os jornais, os canais de TV, as novelas, tudo dominado pelos comunistas. O senhor sabia que os Beatles eram comunistas? Que a ONU é uma confraria de comunistas?  


- Nem sabia que existiam ainda tantos comunistas...  


- Eles são malignos, fingem-se de mortos para enganar tolos. O senhor acha que Fidel morreu, que Chávez morreu? Morreram nada. Estão por aí, insuflando essas manifestações de rua, essa comunistice no Chile. E querem vir para cá, derrubar o mito e voltar ao poder. 


- Mito?  


- Sim, nosso anjo enviado pelo Senhor...  


As metáforas delirantes costumam apoiar-se em odes inabaláveis. Santificar uns e demonizar outros, sem mediações nem relativizações, é um ritual para as cabeças que se apequenam para despistar os piores traumas e ressentimentos.  


- Governos chefiados por anjos podem errar, meu caro?  


- Não, nunca. Humanos erram. E comunistas, é claro. O senhor não vê o Papa, aquele comunista? Fica por aí pregando a defesa do meio ambiente, a concórdia universal. Não passa de um globalista. Sem falar que defende meninos de rosa e meninas de azul. Soube até que anda lendo Marx, uma coisa que eu nunca tive coragem de fazer... É um Papa que odeia a família, doutor.  


- E a desigualdade social? É tramoia comunista também?  


- Lógico que é. Só não tem trabalho quem não quer. Comida tem de sobra. É só parar de reclamar. Só o Chico Buarque e o PSOL é que acreditam nessa conversa de desigualdade. Se deixarem o empresário trabalhar, todos vão prosperar e o Brasil vai ganhar o mundo. Nosso mito nos conduzirá nesse caminho, graças às lições de Oráculo do Cascalho, nosso guru.  


Dr. Feelgood, apesar da larga experiência profissional e da notável sensibilidade humana para lidar com “loucos” e afins, perdia o chão nesses momentos. Mitos que se desqualificavam cotidianamente, oráculos que não concluíram o antigo ginasial... Era muita coisa para ele digerir numa conversa tão curta. 

 

- Preciso ir, doutor. Vou me encontrar com uns amigos anticomunistas. É um pessoal ungido também.  


- O que pretendem fazer? 

 

- Vamos organizar protestos verde-amarelos em frente a escolas, museus, teatros e cinemas. Precisamos tirar os comunistas do altar da Santa Igreja, das salas de aula, dos estúdios da Globo, das colunas de jornal. Vamos fazer vídeos e povoar de gritaria as redes sociais.  


- Não acha que é desperdício de tempo? Não há nada mais útil que possam vislumbrar?  


- Mais útil que acabar com comunistas? Não, não há.  


Dr. Feelgood duplicou a dose dos remédios e pediu ao seu caro paciente que fosse pela sombra no retorno para casa.  


- Sombra é coisa de comunista, doutor. Vou sob o fogo do sol, protegido por Deus!

 

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected] 

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