O irlandês George Bernard Shaw (1856-1950) publicou, em 1884, “Um socialista insociável”, uma divertida peça de costumes, irônica e provocativa. O título do livro é paradoxal: como poderia um socialista – em tese, um sujeito afeito às questões populares, democráticas e de longa duração – se autodeclarar insociável, avesso às trocas materiais e simbólicas típicas da experiência comum?

Imagem ilustrativa da imagem A insociabilidade democrática
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Shaw era um gênio incontestável. Por isso, a escolha do nome para sua obra merece reflexão. A rebeldia do dramaturgo dublinense era, ao mesmo tempo, crítica e bem-humorada. Desgostava das multidões impedidas de pensar com autonomia. Isso não quer dizer que detestava as multidões em si. Tinha enorme apreço pelos trabalhadores e desdenhava da estupidez burguesa.

Como homem de ideias, contudo, sentia-se mais à vontade entre seus livros e blocos de anotações. Era como escritor que imaginava poder contribuir na superação do egoísmo capitalista e da alienação que tornava homens e mulheres reféns de algo colocado fora de suas mentes. Apostava na arte e nas letras como antídoto à barbárie.

Não é difícil imaginar como uma personalidade desse tipo lidaria com a realidade contemporânea. Nesta época de tecnologias e interações obsessivas, Bernard Shaw, provavelmente, viveria angustiado. Há, por toda parte, carência de imaginação política, fragilidade de laços solidários, multiplicação de antagonistas da inteligência. O mundo hoje traslada de teorias conspiratórias das mais infantis a guerras culturais falsificadoras da história.

Como se confrontariam a “insociabilidade” de Shaw e as bobagens em torno da estapafúrdia ideia de “marxismo cultural”? Como o autor de “O discípulo do diabo” lidaria com os delírios daqueles que creem na China como protagonista de uma trama globalista para destruir o Ocidente cristão e capitalista? Pior: o que diria Shaw aos negacionistas que seguem falastrões, apoiam genocídios e receitam remédios sem comprovação científica para enfrentar uma doença perigosa e desafiadora?

Das redes sociais, é provável, Shaw passaria longe. “Muito ódio, nenhuma ideia” – afirmaria o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1925. Num espaço tão resolutamente dedicado a ideias descartáveis e amizades suspeitas, a obsessão pela aparência só pode resultar em julgamentos sumários e mentiras galácticas. Não é preciso ser leitor de Bernard Shaw para suspeitar que as famosas “fake news” e os execráveis “cancelamentos” estão no DNA da proposta de colocar todos frente a frente, sem mediações nem esforços concentrados na formação de novas mentalidades. Linchamentos virtuais, de fatos ou pessoas, são pressupostos numa sociedade em que todos competem por migalhas.

Filiado ao fabianismo britânico (uma espécie de socialismo “pé no chão”), Shaw acreditava que, para a esquerda, “poder” deve ser verbo, e não substantivo. O alvo deve ser a ampliação de espaços inteligentes de diálogo, visibilidade e circulação de bons afetos. No limite, a superação das contradições sociais que perpetuam desigualdades.

George Bernard Shaw combateu o ruim do mundo através de sua obra e de seu exemplo pessoal. Foi um antissocial tão excêntrico quanto democrata.

Marco Rossi é sociólogo e professor da UEL

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