A força dos afetos
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Marco A. Rossi 
Em “O avesso da pele”, um dos melhores livros de 2020, Jeferson Tenório escreve sobre a urgência de estimular o que não é visto e não pode ser demarcado pelos outros. Cedo ou tarde, diz o autor, a cor da pele irá rotular as pessoas, determinar suas chances e seu lugar no mundo. Por isso, o campo dos afetos – os sentimentos que produzimos e alimentamos dentro de nós – é vital. É lá que encontramos o que realmente somos e aquilo que muitos insistem em não querer saber.
Ao longo da vida surgem os adjetivos que nos colocam em cena. Negro, pobre, gay, estrangeiro, esquerdista, filho de não-sei-quem, portador de não-sei-o-quê. Ainda que as nossas ações não estejam ligadas a nenhuma dessas condições, elas são sempre lembradas como um aviso prévio de que as coisas irão bem ou mal. Um professor que esteja dando sua aula de matemática e ensinando aos alunos a teoria dos logaritmos, mesmo sendo o melhor mestre da escola, é visto, antes de tudo, como “um professor negro”. Não é possível ser apenar professor, advogado, médico, jardineiro, garçom ou o que seja: a cor da pele e o que estigmatiza vêm bem antes.
“É uma excelente pessoa, mas...” Quem nunca ouviu esse tipo de sentença? “Mas” é uma advertência, um chamado à atenção. É preciso deixar tudo nos devidos trilhos. Ainda que alguém seja muito bom naquilo que faz, as adjetivações definem suas ideias e ações. Em seu romance, Jeferson Tenório insiste: é pelo afeto, no campo das invisibilidades que se moldam princípios e valores, que podemos ser livres e, portanto, felizes.

Pelas estradas afetivas construímos redes de significados para a vida, ordenamos passos, erguemos abrigos de paz. Nesse sentido, os espaços familiares, a teia de amigos, o convívio entre iguais (aqueles cuja cor da pele ou da alma também os reduz) são fundamentais a uma existência digna. E os afetos são mais poderosos quando ilustram visões de mundo, ou seja, inspiram a luta contra tudo que inferioriza de antemão.
Em sociedades divididas em classes – e subdivididas em gêneros, raças e preferências culturais –, a condição irreparável é a da desigualdade. A casa em que moramos, os empregos que conquistamos e os códigos de acesso a bens simbólicos ou materiais estão diretamente relacionados com a classe a que pertencemos. Dentro das classes, falam alto suas inúmeras parcelas: uma coisa é ser um operário; outra coisa bem diferente é ser uma trabalhadora negra, pobre e moradora da periferia de uma grande cidade. Contra essa pessoa, os preconceitos e as práticas de exclusão se acumulam, reforçando, cada vez mais, a linguagem do ódio e da violência.
Quando conseguem se organizar politicamente, os rotulados ampliam seu entendimento sobre a realidade que tende a defini-los. Assim, reconhecem-se como iguais na enorme diversidade que, antes de separá-los, reúne suas singularidades. Ocorre que, a cada conquista dessa união, novos rótulos são criados: vagabundos, baderneiros, ingratos etc. A retórica do ódio é racista, machista, homofóbica e, no limite, misantropa. Contra seu avanço, só os afetos coletivos podem oferecer resistência e gritar em bom tom: “Não passarão!”


