Viajar com a família durante as férias é das coisas mais saborosas do mundo. A aventura começa muito antes da saída de casa, com malas e mil e uma anotações de cuidado. Ela tem início na pesquisa sobre o que fazer, visitar, comer nos dias de descanso. Aliás, descanso é uma ilusão: anda-se muito nas férias, de um lado a outro, para conhecer museus, pontos turísticos, monumentos históricos, paisagens paradisíacas, cenários e gentes da cultura local. Parar para repouso só mesmo à noite, todos exaustos, felizes, já nutrindo grandes expectativas para o dia seguinte.

Imagem ilustrativa da imagem A eterna volta ao mundo
| Foto: iStock

Quando o roteiro tem por destino outro país, a riqueza cresce de maneira exponencial. Língua, expressões de corpo e voz, hábitos, costumes e tradições, tudo fascina, tanto pela diversidade quanto pela constatação de que vivemos, todos nós, em pequenas ilhas, às vezes contaminadas de soberba e sentimentos de exclusivismo. Muito do preconceito vem dessa pobreza espiritual de ver o outro como exótico, menor, uma mera curiosidade turística.

Aprendi com Walter Benjamin (1892-1940) a dar às minhas viagens duas inflexões importantes. A primeira é deixar-me perder pela ideia de tempo que não cessa, não exige nada, não tem por que apressar meus passos. Aprecio tudo bem devagar, observando detalhes, jeitos de caminhar das pessoas, falas, risos, tumultos e contradições. Permito-me enfeitiçar pela história das edificações, pela variedade das atrações de lazer, gastronomia, diversão gratuita. À noite saco minha caneta e meu caderninho antropológico do bolso, anoto tudo, crio versos, rabisco alguns desenhos e eternizo muita coisa em minha memória. Toda viagem que fiz até hoje jamais teve fim – todas elas marcam meu modo de ser, fazer, sonhar. (Meu cosmopolitismo de esquerda, certamente, vem dessa opção pela viagem eterna.)

A segunda inflexão de caminhante incansável que aprendi com Benjamin separa as noções de vivência e experiência. Enquanto a vivência é individualizada e assimilada às pressas, a experiência é aquele conhecimento obtido por meio de acúmulos, prolongamentos e desdobramentos de viagens, mapas consecutivos, planejamentos permanentes. Experimentar a realidade é algo muito mais completo e dinâmico do que apenas vivenciá-la. A experiência produz e dissemina memórias, afetos e nos vincula a uma comunidade de destino; a vivência, apesar de seus possíveis prazeres, desmancha-se no ar, como os sólidos de outrora que já não passam de fumaça numa era de ininterruptos fluxos e incertezas.

A viagem enquanto tal, infelizmente, tem seu dia para acabar. Há horário e data impressos num pedaço de papel, lembrando-nos do voo que nos trará para casa. A chegada ao lar é momento de paz e sensação de mais um capítulo bem escrito de nossa história. Ainda que o retorno traga reminiscências de discursos nazistas oficiais na TV, campanhas ridículas por abstinência sexual, tragédias por incompetência na educação, no meio ambiente, na saúde, na ciência e na ética pública, a vida continua pedindo passagem, sem prazo de validade para experimentar os detalhes de uma grande utopia. Avante!

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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