Marco Rossi -

A dor que a morte nos dá

A indignação diante da morte é ainda maior quando concluímos que ela poderia ter sido evitada

A pandemia do novo coronavírus nos colocou de frente com a morte de um modo muito agudo. Além das pessoas próximas, ela nos retira também aquelas nas quais nos espelhamos para ser quem somos. Perdi a conta do número de escritores e musicistas que se foram desde março de 2020. Vamos ficando órfãos toda vez que alguém que nos servia de inspiração parte desta para (tomara) uma melhor.

 

A dor que a morte nos dá
Istock
 


Penso em Walter Benjamin e na ideia de mimese. Durante toda a vida imitamos outras pessoas. Queremos atingir um grau de perfeição que já existe em outros seres humanos. E, quando já somos bem profissionais fazendo o que fazemos, lembramos que ainda somos tributários de nossos ídolos. Não existiríamos como somos se eles não tivessem vindo ao mundo antes de nós.


Sentimo-nos mais seguros quando nosso trabalho é comparado ao de nossas referências. Em vez da tristeza pela incompreensão de nossa desejada originalidade, fica a certeza de que perceberam quem anima nossas atividades. Quando me dizem que ando escrevendo de modo semelhante ao de alguém que admiro, sinto-me aliviado. Significa que incorporei bem as lições dos mestres e estou no caminho certo para realizar tarefas cada vez mais elaboradas e sofisticadas. Triste deve ser quando dizem que o que fazemos não bebe em fonte alguma. Imagino que isso deva dar uma enorme sensação de vazio.


Rememoro Walter Benjamin mais uma vez e recupero a ideia de que somos a linguagem que praticamos. Um poeta, com sua inegável visão romântica da existência, é mais aconselhado para falar de amor do que um sujeito rude, que sai às ruas de camisa amarela e reivindica uma nova ditadura militar. Do mesmo modo, um militante dos direitos humanos me parece mais credenciado para falar em políticas públicas de combate à desigualdade social do que (de novo) um sujeito que vai de praça em praça gritando mito, mito, mito...


A morte daqueles que amamos constrange e desanima. É como se um pedaço de nós fosse retirado sem que concedêssemos permissão. Fica, então, aquela dor do furto e da injustiça. Indagamos os céus e os infernos, queremos saber por que não se foi aquele corrupto safado, aquele humano mesquinho, aquele ser desprezível.  Por quê?!


A indignação diante da morte é ainda maior quando concluímos que ela poderia ter sido evitada. Vivemos num país que debocha da morte num momento em que ela está mais forte do que nunca. Para muito além da falta de cuidado de si e dos outros, elogiamos quem faz galhofa da tristeza de milhões de brasileiros, criminalizando aqueles que se preocupam em conter a doença e promover a vacinação em massa de toda a população. Dizem que a palavra é exagerada, mas não conheço uma melhor: genocídio.


A espiritualidade elevada nos ensina a conviver com a morte de modo sereno. Não entendemos os desígnios daqueles que (talvez) nos acompanhem do alto, ao mesmo tempo que nos sentimos inúteis na preservação das vidas que amamos. Resta a resignação. E a esperança de que aqueles que matam sejam um dia devidamente punidos.

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo