A democracia, por suas prerrogativas de ação coletiva e defesa contra todas as tentações autoritárias, só pode ser vertiginosa. Nesse sentido, o documentário de Petra Costa em exibição na Netflix, “Democracia em vertigem” (2019), é expressão de uma ideia inequívoca, qual seja: a democracia é permanentemente obrigada a se proteger das fraquezas e desmaios que a ameaçam.

Imagem ilustrativa da imagem A democracia numa casca de noz
| Foto: Shutterstock

A solidez de um regime democrático depende das instituições políticas, das formas de organização do mundo jurídico e da vida econômica. A consistência democrática, contudo, vem das mentalidades que põem ideias e valores em circulação. De pouco ou nada adianta liberdade de expressão, por exemplo, se há quem defenda aberta e impunemente censura contra professores e perseguição ideológica; faça apologia a ditadores e torturadores; despreze o conhecimento científico e se guie de forma intolerante por fundamentalismos religiosos; propague mentiras em espaços de comunicação; exista em distrato com a própria pregação moral de legalidade e correção. Não cabe, em resumo, numa democracia de verdade, a velha mania de exigir dos outros aquilo que não se é capaz de teorizar ou fazer.

O filme de Petra Costa narra os acontecimentos que desde 2013 mergulham o Brasil numa era de incertezas e obscurantismos. Os bastidores do golpe que depôs Dilma Rousseff e prendeu Lula expõem a arquitetura de um projeto de poder à extrema-direita, que garimpou na fragilidade dos laços democráticos da vida nacional uma maneira de conquistar a hegemonia sem debater nada, apelando para o ódio como política. Há quem acuse o documentário de ser parcial, uma simples defesa de um dos lados da história. Contra esse tipo de assertiva existe pouco a dizer numa época na qual se crê cegamente na “neutralidade ideológica” que coloca o país acima de tudo e Deus acima de todos. Ainda assim, resta a provocação: como é mesmo o tipo de gente que se considera imparcial e arvora seu caráter de porta-voz das maiorias?!

Petra Costa não esconde o pacto conciliatório que permitiu a condução de um partido de esquerda ao poder, num país de traços coloniais insistentes. Da mesma forma, “Democracia em Vertigem” não lança para escanteio as incongruências dos governos petistas, os quais, entre inúmeros outros equívocos, apostaram na mudança social pelo aumento da renda e pela multiplicação do consumo, sem ameaçar o monopólio dos meios de comunicação nem o prestígio dos sujeitos da Casa Grande.

Figuras como Eduardo Cunha, Michel Temer, Aécio Neves, Sergio Moro, Janaína Paschoal e os membros da família hoje presidencial – que desfilam entre risos e grandes expectativas na bela edição fotográfica do documentário – são o desfalecimento da democracia, que induz à crença de que o mundo gira e impõe mudanças. O fato, contudo, é que a vertigem democrática não é natural, uma vez que é decisão política, produto de contradições de uma sociedade que não decidiu os caminhos que iria perpassar após o fim da ditadura civil-militar. Esse vacilo obliterou o espírito democrático e trouxe de volta a sombra assustadora do passado, em que direitos são vistos como desnecessários e o mercado dá as cartas, em nome do lucro das velhas classes dominantes.

No fim do filme, uma certeza e uma dúvida. A certeza: a democracia só existe quando os ricos se sentem ameaçados – do contrário, o sistema se torna refém das oligarquias. A dúvida: seremos capazes de reunir forças para seguir lutando? Petra Costa, ao ousar juntar sua história pessoal e familiar com a trajetória brasileira dos últimos 30 e poucos anos, elaborando uma narrativa no melhor estilo benjaminiano, oferece algumas pistas: a vertigem democrática não impediu que suas reflexões se tornassem arte e objeto de reflexão, uma ponte, portanto, entre o presente e o futuro. Por extensão, o amanhã permanece aberto, na certeza de que a Nova República está morta, as ditaduras do passado não foram devidamente enterradas e as utopias continuam a depender, essencialmente, de amor e coragem.

Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected]

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