A CIDADE FUTURA -

A CIDADE FUTURA - Realismo fantástico

" Há um engajamento musical que ultrapassa e sepulta o exercício retórico, moldando versos em perplexidade e desejo de mobilizar as pessoas para uma tomada coletiva de consciência"

O ex-titã Arnaldo Antunes lançou há poucos dias seu 12° álbum musical, “O real resiste”. Toda a sonoridade do trabalho é intimista, um convite à reflexão sobre os estranhos tempos em que vivemos. Na faixa-título, cujo videoclipe circula nas redes sociais desde o final do ano passado, podemos ouvir que “miliciano não existe, torturador não existe, fundamentalista não existe, terraplanista não existe”. Graças à realidade que não se entrega – aos corajosos que resistem – essas “coisas” serão lembradas como “ilusão, fumaça de rojão”. Antunes vai além e afirma que “não existe desmatamento, não existe homofobia, não existe fanatismo, não existe neonazismo”. Por fim, como imaginar uma “tirania eleita pela multidão”?   

 

A CIDADE FUTURA - Realismo fantástico
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O tom lírico das canções não é o da ironia nem o da indiferença. Há um engajamento musical que ultrapassa e sepulta o exercício retórico, moldando versos em perplexidade e desejo de mobilizar as pessoas para uma tomada coletiva de consciência. Para isso, apela para uma linguagem “fantástica”, um conteúdo político “mágico”. E é exatamente nisso que reside a grandeza do trabalho de Arnaldo Antunes. 



   

O realismo fantástico – ou mágico, como queiramos – é uma vertente da literatura latino-americana que obteve enorme êxito e vasto público nas décadas de 1960 e 70. A ideia era combinar visões realistas com elementos e cenários surreais, incompreensíveis ao pensamento imediato, já pronto e delineado. Com gente de carne e osso vivendo situações inusitadas, repletas de componentes absurdos, o realismo fantástico tornou a literatura um excelente esporte de combate. Ao mesmo tempo que atiçava a curiosidade dos leitores, inspirava ímpetos por mudanças num continente assaltado por ditaduras e rasgos hostis do imperialismo estadunidense. Junto com a literatura ficcional, renovaram-se a música, o cinema, a poesia, as artes plásticas... A América-latina, para usar uma expressão sempre feliz de Roberto Schwarz, “nunca havia sido tão inteligente...”   

 

As obras “Cem Anos de Solidão” (1967), de Gabriel García Márquez, e “O Jogo da Amarelinha” (1963), de Julio Cortázar, são duas dicas valiosas para entender esse momento tão fecundo de nossa estética cultural e de nossa ética política. Foi, como se diz na crítica literária, o grande “boom” da literatura em nosso sofrido chão.   

 

No realismo fantástico – em Cortázar ou Antunes –, o mágico se torna trivial. Passa a ser bastante razoável que fantasmas, bruxas ou zumbis existam de verdade. Nada mais escapa à naturalidade. A única coisa que devolve o ar da razão às pessoas é a realidade que se apresenta com o retorno à vida, depois que a leitura se encerra, o filme acaba, a contemplação da arte termina. O real, então, resiste, exigindo ponderações sobre o modo como os dois mundos – o da imaginação e o da vida prática – podem ser compatíveis, estranha e loucamente intercambiáveis. Assim, para que os monstros que divertem a imaginação não assombrem os cidadãos em suas casas, ambientes de trabalho, escolas ou praças públicas, o real precisa mesmo resistir. Quando não pode mais ser racionalizada, a realidade abre-se para o impossível: para milicianos, fascistas, dementes que, em tese, não deveriam existir. 


Marco A. Rossi é sociólogo e professor da UEL – [email protected] 

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