Vocação não portuária

Depois das apreensões de várias toneladas de cocaína pela Receita Federal no porto de Paranaguá e das 3,3 toneladas em marina abandonada em Guaratuba, tivemos agora outra de 700 quilos da droga, ontem, em Paranaguá. Visível a logística disso tudo, seja no aproveitamento dos contêineres e agora na ocultação precária dos dois imóveis, o uso da via marítima para o sucesso da operação e com isso a necessidade de fortalecer as condições de vigilância. Em alguns casos o rastreamento competente dos agentes do Leão e noutros a interferência dessa peça indispensável da ação policial que é a denúncia.

Uma ironia no histórico portuário, um dos mais importantes em granéis, e no passado, lá pelos anos cincoenta, o terminal cafeeiro mais importante do mundo por haver superado Santos com o emprego da Estrada do Cerne, tortuosa e precária na diretriz norte-sul e que não podia obviamente acolher os caminhões de hoje, isso sem contar que a parte final, do planalto ao litoral, era pela também estreitíssima e deslumbrante Graciosa e que submetida ao tráfego de hoje desmontaria. Uma história de brilho, afrontada semanticamente pelo "brilho" da droga.

Rio Doce por aqui?

Quando da tragédia da Vale do Rio Doce houve preocupação também com as barragens aqui existentes, afinal com o governo Ney Braga, e subsequentes tivemos o ciclo das hidrelétricas, como também cuidamos das erguidas para abastecimento de água. Nossa engenharia se deu bem, inclusive em Itaipu, a de maior produção no mundo, mas agora há questionamentos técnicos com a do rio Miringuava, voltada para abastecer São José dos Pinhais e Região Metropolitana de Curitiba e sob administração da Sanepar, que vive um momento de críticas com as tarifas contestadas tecnicamente pelo Tribunal de Contas e acusada de tratar desigualmente seus usuários na sua relação com acionistas, o que estaria demonstrado nas suas práticas de preços.

A importantíssima obra estaria paralisada e submetida a desgastes conforme auditoria do Tribunal de Contas de abril deste ano e o assunto é "bombado" por iniciativa da Fundação Boticário e do Instituto Renault em mobilização conservacionista.

Meia boca

Nenhum problema grave teve enfrentamento sério pelo governo Bolsonaro: agora tivemos a suspensão da tabela do frete para evitar greve caminhoneira, como neste momento se procura limitar saques do FGTS, acolhendo parcialmente a bronca da construção civil. É verdade que o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, sugere medida de longo prazo para a primeira questão: a troca do insumo diesel por gás natural veicular como redução de custos e mais eficiência. Não há portanto definição clara de projetos, o que não reduz as constantes provocações genéricas, sem fundamento técnico ou científico, quanto a radares nas estradas e o desmatamento da Amazônia, para os quais anuncia embargo dos registros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, como se já não bastasse colocar em dúvida conclusões do IBGE.

Síntese disso tudo: pesquisa Datafolha apurou que de cada dez pesquisados quatro afirmam que o presidente da República até agora nada fez de positivo.

Diálogo impositivo

Como é indispensável que o Boticário e a Renault se envolvam nas discussões sobre água e a barragem do Miringuava na condição de empresas dependentes da matéria-prima da Sanepar, também se compreende a intervenção do setor da construção civil opondo restrições ao uso do FGTS para estímulo ao consumo, quando se trata de fonte-chave para o segmento. Da mesma forma, na outra ponta dos serviços, temos a demanda dos caminhoneiros contra a tabela de fretes. Para que não caiamos na inércia é preciso, às vezes, um posicionamento como o da Câmara Federal e seu presidente Rodrigo Maia no andamento da reforma da Previdência face à falência do sistema de coordenação oficial.

O diálogo nesses casos é impositivo, mas que se torna impossível em episódios como o do ataque de Bolsonaro aos governadores do Nordeste e que os levou ao não comparecimento da inauguração, ontem, do aeroporto de Vitória da Conquista. Nessas pendências tudo fica a depender das mediações políticas, por mais complexas que pareçam. É aí que o político se transforma em lubrax, como se viu na questão previdenciária.

Pedágio

Decisões judiciais sobre pedágio são sempre pendulares, variando mais que biruta de aeroporto. Agora, por exemplo, tivemos a suspensão da redução de suas tarifas na Caminhos do Paraná. É que essa dinâmica mostra ao menos vigilância com um setor sempre amparado pela demagogia do "baixa ou acaba" de Requião ou o corte linear de 50% às vésperas da eleição por Lerner, pra não perder a parada, depois acertadajudicialmente e que veio com os degraus tarifários para complicar a vida de transportadores.

Folclore

Até a chegada de Bolsonaro o episódio de maior submissão aos Estados Unidos da América do Norte, como símbolo e metáfora, havia sido o do baiano Otávio Mangabeira beijando a mão do presidente daquele país em visita ao Brasil. O Otávio era um gênio da UDN e irmão do João, fundador do Partido Socialista Brasileiro, tempo de alto QI na política.

mockup