Ao insistir na sua inocência, e consequentemente cultuar o papel de vítima, o ex-presidente Lula investe num objetivo - acionar o sentimento de culpa por seu sofrimento pessoal, mas cujos pecados foram exuberantemente demonstrados na justiça. Como falamos sempre em contraditório é preciso opor ao chororô a carga detalhada das acusações tanto a gravitação empreiteira para favorecê-lo nos episódios do tríplex de Guarujá como nos do sítio de Atibaia e de tantos outros. Há sinais no STF de que haveria carga inusitada contra Lula, como é o caso do ministro Marco Aurélio Mello, que acha discutível o enquadramento no delito de lavagem de dinheiro acoplado ao de corrupção.

O Brasil tem uma trajetória de vitimalismo que não pode ser desprezada, inclusive aquela de 1930, utilizada pela revolução, em que um caso passional na morte de João Pessoa, apontado como de natureza política, deu nutrientes ao movimento, e no próprio suicídio de Getúlio Vargas em 1954 que assegurou a vitória da "frente popular" JK-Jango, imobilizando os que tramavam contra o "pai dos pobres". Lembro de uma situação doméstica: tinha discussões diárias com meu pai, getulista fervoroso, com o acúmulo das denúncias especialmente depois que sua guarda pessoal fez o atentado contra Carlos Lacerda e matou o major Rubens Vaz, da Aeronáutica. Pois no dia 24 de agosto, quando me dirigia para a Universidade, ouvi em alto-falante a notícia da tragédia e imediatamente retornei para casa no empenho de dar apoio ao meu pai.

Essa sensação de culpa, no meu caso a de ter afligido tanto o meu pai, deve ter operado como um disparo coletivo em boa parte daquela massa que foi às ruas para quebra-quebra pela redenção do mito. O sangue, porém, operou como purificador no martírio e colocado como um tributo pela soberania nacional, como se viu na Carta Testamento. Na tragédia um tom de zombaria, tal qual pode se dar hoje com as vicissitudes de Lula.

Na comissão especial

O Paraná tem relativo destaque no momento brasileiro e em função da reforma previdenciária e de tal modo que emplacou cinco integrantes na comissão especial: Felipe Francischini (que preside a CCJ), PSL, Filipe Barros, PSL, Paulo Martins, PSC, Stephanes Júnior, PSD, e Gleisi Hoffmann, PT, uma das representações oposicionistas entre os 49 membros. Conforme o que havia sido prometido foram detalhados na íntegra os dados do impacto da reforma que estavam sob censura: a economia em uma década será de R$ 1,236 trilhão partilhado em R$ 807,9 bilhões para o regime geral e R$ 224,5 bilhões para o regime do servidor federal.

Depois do aquecimento, razoavelmente tumultuado, os times entram em campo, com uma oposição minoritária, mas que explorará minuciosamente o multifacetado projeto com as definições de grupos corporativos.

Dificilmente o desejo presidencial de ter o debate da matéria em plenário ainda no primeiro semestre será alcançado porque o trâmite nessa etapa pode durar mais de dois meses na qual o governo precisa, para liquidar a fatura, de 25 dos 49 votos.

Acionistas com Ratinho

Pelo jeito a austeridade, desejada pelo governador Ratinho Junior, se limita ao setor público com os bloqueios salariais, tanto que acionistas da Copel e da Sanepar é que estão se incumbindo de vetar o pleito de diretores e conselheiros das estatais. O primeiro, de maior impacto, foi o de gestores da Sanepar tentarem alta de 12,2% e os da Copel em 5,8% (discussão marcada para segunda-feira, dia do tumulto grevista), ambos contestados por acionistas. Será que tiveram os acionistas todo esse zelo quando o Ibama flagrou a Sanepar jogando esgoto no rio Iguaçu ou quando a Copel, sob Requião, disputou licitação de estradas?

Soaria esse poder de veto de acionistas, que naturalmente defendem a alta das tarifas, como um sinal de privatização para valer e não limitada a subsidiárias?

Paz sem atrito

Como suscitaram a data do massacre de 2015 para sua greve, o que conota conflito e tensão, a liderança do Fórum do sindicalismo público esclarece que tudo deve ocorrer em paz como o demonstram nos contactos com os deputados estaduais na sua reivindicação de 16% de reajuste em função do congelamento salarial de três anos e que atinge só o pessoal do Poder Executivo, dado seletivo perverso. Ainda recentemente o governo proibiu, para facilitar o seu Refis, que procuradores ficassem impedidos de remuneração em processos fiscais, o que baixa seus custos em 8%. Apesar dessas promessas dos servidores de que não haverá tumulto cautelas especiais estão sendo adotadas para a segurança dos parlamentares.

O choro da menina

Na semana o choro de uma menina da área rural de Doutor Ulisses, na Região Metropolitana de Curitiba, em reportagem televisiva, por não poder ir à escola por falta de transporte, levantou um drama que se repete em todo o estado e do qual nem Londrina está livre, tanto que a suspensão da licitação em março não impedirá a continuidade do serviço, segundo a prefeitura.

Folclore

Em 1954 o ator e radialista Silvino Neto, imitando a voz de Getúlio Vargas com perfeição, leu em rede nacional a Carta Testamento e dá para imaginar o impacto emocional do improviso.

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