Unidade inviável
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terça-feira, 14 de abril de 2020
Luiz Geraldo Mazza 
O tema dominante, na abertura da semana, é o de sempre: a impossibilidade de uma ação unívoca do país na quarentena com as seguidas fricções entre o ministro da Saúde e o presidente da República. Foram desenvolvidos esforços especiais ontem para que a dicotomia não persistisse e ficou demonstrado, na prática, que a corrosão da imagem presidencial parece não afetar seus seguidores dispostos à manifestação de ruas, como fizeram, na semana passada, com carreatas.
Felizmente está se construindo uma nova federação, já que a ação dos governadores em apoio ao ministro da Saúde expressa um sentido próprio no capítulo da autonomia e interdependência ante uma situação concreta. O fato é que a militância bolsonarista não pode ser subestimada, daí porque o empenho pela unidade se torne dramático, já que isso jamais será resolvido com pesquisas e a postura negacionista do presidente, mesmo que se prove ser minoritária, é indutora pelo menos de progressiva restrição da quarentena, já visível em alguns estados e municípios, e até em São Paulo a média de isolamento da população mal passa de 50%, quando o desejável imporia um mínimo de 70%.
O ruim e o pior
Análise do Banco Mundial indica que o PIB brasileiro deve cair 5% sob o impacto da pandemia na América Latina e no Caribe e prognósticos locais sugerem a perda de 60 mil empregos formais em duas semanas. Entre a preservação da vida e da economia dá para perceber que se trata de uma opção entre o ruim e o pior, o que dá ao cenário a terrível ideia de que todos têm parcela de razão, ainda que seja visível a imposição do isolamento pela maior parte das nações.
Conflitos com Mandetta
A partilha de R$ 4 bi pelo Ministério da Saúde a estados e municípios é contestada e acusada até de casos de apadrinhamento, o que mina a suposta unidade anterior que dava cobertura a Mandetta, ora violentamente criticado. Chio também contra o repasse de R$ 2 bi às santas casas, que não seriam da linha de frente ao combate ao coronavírus. Ontem Paulo Guedes deveria ter apresentado a proposta de socorro aos estados, estimada em pouco mais de R$ 30 bi, e também aos municípios, ainda que afastado o propósito de repor perdas de ISS e ICMS.
Capitalismo treme
Está mais ou menos evidente que investidores só terão dividendo no longuíssimo prazo e isso já é visível na redução da distribuição de lucros aos acionistas. De outro lado um acordo entre exportadores de petróleo fixou um corte recorde de 10% na produção como forma de sustentar os preços durante a crise, vista como maior do que a de 2008, pois a redução é quatro vezes superior à praticada naquela época. No meio da crise gestos solidários como o do Itaú-Unibanco na doação de R$ 1 bi para combate à Covid-19.
Folclore
A duração da quarentena é a ansiedade do momento: em 24 horas tivemos 62 novos casos da doença e quatro mortes. No Japão cresce o número de ocorrências e na China, que aparentava ganhos, surgiram novos casos e de contágio comunitário local. O presidente do Brasil, em live com religiosos, no domingo disse que o vírus está indo embora. Fé de mais, conquanto isso pouco tenha a ver com o Fed americano, que não ignora a crise.


