Se estivéssemos ainda no governo Beto Richa seria inevitável nesses dias a enxurrada de institucionais fazendo analogia entre a situação do Paraná e a de unidades falidas como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e Goiás obrigadas a penosos cortes de gastos em água, luz e telefone e parcelamento de salários. Fica visível que não somos uma ilha e que vivemos também em exasperado sufoco evidenciado no terceiro cartão amarelo pelo Tribunal de Contas: se fosse no futebol já estaríamos com o vermelho no segundo.

Não há atraso de salários, mas a conta esticou demais e há três anos o pessoal do Executivo não vê a cor de reajuste e no horizonte pinta a hipótese de supressão dos quinquênios e ainda da licença-prêmio, conquista histórica dos barnabés, nutrientes para novas pressões do Fórum dos Servidores Públicos, que já teve encontro com Reinhold Stephanes e há outros agendados para debater as pendências daí decorrentes.

Um dos acidentes de percurso de Bolsonaro está na negociação das dívidas estaduais, nunca pagas e sempre proteladas e agora com os estados, à moda de filhotes de passarinho no ninho com o biquinho aberto aguardando a minhoquinha, à espera dos prometidos R$ 10 bilhões da União para saírem do sufoco que é apenas a véspera de outro mais contundente. No Paraná ao menos há uma perspectiva de acomodação próxima como resposta a qualquer estímulo que destrave a economia.

Presença

Estamos com boa presença no item das reformas com Joyce Hasselman, pontagrossense paulistada, como líder do governo e o Felipe Francischini na presidência da Comissão de Constituição e Justiça, e certamente veremos em Gleisi Hoffmann, presidente do PT, uma das vozes mais fortes de oposição. Em breve quem ocupará espaço, no momento certo, será um sem mandato, o ex-deputado federal Luiz Carlos Hauly, relator da reforma fiscal, que tem sido muito consultado sobre o tema.

Mimetismo ideológico

Nesse tempo de irracionalidades como o caso clássico de o nazismo ser de esquerda é a questão do mimetismo, comuníssimo no exercício político e no pendularismo de líderes como Getúlio Vargas, que fez discurso, a bordo do “Minas Gerais”, defendendo a linha do Eixo e depois aderindo aos aliados com o ganho de Volta Redonda e a abertura para os americanos construírem os aeroportos de Afonso Pena aqui e o de Natal, esse para a campanha da África. E isso num tempo de ataques a navios mercantes brasileiros por submarinos alemães em águas territoriais nacionais, olhados pela visão conspiratória como se fossem yanques. Houve momentos de identificação com o nazismo na perseguição interna aos judeus, tema de série da Globo e ao fascismo na legislação trabalhista dele decalcada.

Uma das evidências miméticas está nos partidos: o PSD, que pretendeu ser socialdemocrata, e no PDS, substituto da Arena dos militares; no PPS, popular socialista, que era o ex-PCB, Partido Comunista Brasileiro, que por seu bucratismo conservador foi superado pelo PCdoB e que agora atingido pela fadiga do material virou “Cidadania”; PDT foi a alternativa de Brizola por ter perdido o PTB para Ivete Vargas, ajudada pela ditadura militar, e com isso grafar o “socialismo moreno”. Essa escalada é infinita.

Tudo a limpo

Descentralizações do governo como a que se dá em Londrina é estratégia com aproveitamento de eventos especiais como se deu em fevereiro em Cascavel no Show Rural Coopavel e como se dará brevemente em Maringá, climas adequadíssimos para enfoques regionais. Demandas de Londrina como a questão da Sercomtel, proposta de fusão do Iapar, são enfocadas ao lado de problemas infraestruturais como o do aeroporto e questões viárias, entre elas o projeto executivo da PR-445 até Mauá da Serra. No balanço do primeiro dia tivemos a criação da delegacia da mulher 24 horas e dois viadutos.

Mais pedágio

O foco do momento em relação a Beto Richa é a Quadro Negro, aquela do desvio das construções escolares em R$ 22 milhões, agora acusado pela terceira vez por corrupção passiva e prorrogação indevida de contratos de licitação. Como o salvo conduto libera Richa da operação “Integração” nos pedágios, a Polícia Federal segue apurando anomalias ali ocorridas como a decorrente de contrato entre a Rodonorte e o Consórcio J.Malucelli, no qual foi apurado um sobrepreço de mais de R$ 24,3 milhões com majoração aproximada de 18% nos preços pagos pelos serviços.

Folclore

Elegante e conciliadora como sempre, a classe empresarial da terra (pesquisa Datacenso) dá 85% de créditos a Ratinho Junior e 70% a Bolsonaro, aposta nas reformas, mas reclama “Menos Twitter e mais trabalho” e adverte “afaste os filhos”. O agrado é anestia para as recomendações mais sérias.

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