Curitiba e Londrina, como todas as grandes cidades do país, assistiram domingo ao divisor ideológico que tem nas duas facções - a que defende a inocência e a liberdade de Lula e a que cerra fileiras em torno da Lava Jato uma forte identificação: o ceticismo em relação ao Poder Judiciário. É que enquanto o ex-presidente se declara injustiçado, alvo de perseguição, o outro lado fulmina decisões do Judiciário e alguns dos seus integrantes. Assim os dois lados que saíram em passeatas tiveram esse ponto em comum: restrição ao poder que garante e assegura o equilíbrio numa democracia.

A vacina aplicada pela OAB, organizações comunitárias e centrais sindicais, pondo-se em defesa do Judiciário, foi válida, mas não suficiente e em meio às pregações houve estímulo para que se retome, o quanto antes, no Senado, a CPI da “Lava Toga”, iniciativa irracional. O clima passional, radicalizado, não oferece matizes no rígido espectro ideológico, pois afinal não há injustiça alguma no caso de Lula, e decisões como a que determinou a ida à Justiça Federal dos crimes do Caixa 2, por um voto, expressam cuidados da parte dos julgadores e respeito ao livre convencimento. Para a plateia, contudo, o viés subjetivo denota envolvimento.

Decisões judiciais em ordem civilizada podem e devem ser amplamente discutidas, porém rigorosamente cumpridas e magistrados devem entender que numa conjuntura excitada como a nossa passam nem sempre por julgamentos agradáveis, aqui e na Suíça. Só que aqui estamos num nível mais selvagem.

Alinhamento

A realização da 59ª ExpoLondrina, uma das maiores expressões regionais do agronegócio, mostra, uma vez mais, postura de engajamento, de aplicação e estudos, na causa comum, em defesa de políticas públicas, o que ganha relevo especial com a presença de Teresa Cristina, ministra da Agricultura. Londrina tem uma tradição histórica de rebeldia em função de sua origem, como o demonstrou em movimento nacional nos anos 50, arregimentada na luta contra o confisco cambial do café e que teve que encarar na “Marcha da Produção” a repressão do Exército Nacional, causa da baixa votação do ex-ministro da Guerra em 1960, general Henrique Teixeira Lott. Foi um revide político à opressão, uma resposta antes de tudo civilizada, preferível a qualquer outra forma de retaliação.

Preso político

A choradeira de que Lula é preso político e não um político preso (e em função de julgamento normal com amplo direito de defesa) perdeu um pouco do charme revolucionário quando o terrorista de sua preferência, Cesare Battisti, diante de juízes italianos, encerrou a farsa de sua propalada inocência com a confissão dos assassinatos. A jogada oportunista do PT, primeiro com a postura do ministro Tarso Genro, da Justiça, e ao final com o ato de Lula consolidando a presença do fugitivo entre nós. O Judiciário acatava, como se sabe, a extradição. Tão inocente quanto o ex-presidente já condenado duas vezes na primeira instância e com a confirmação na segunda do episódio do tríplex de Guarujá.

Crime, comando dividido

Durante muito tempo, à época de Requião especialmente, se negava a existência de núcleos do crime organizado em nossos presídios. Hoje é visível a hegemonia do PCC, Primeiro Comando da Capital, o mais articulado do país e originário de São Paulo. Há, no entanto, facções com menor capilaridade como uma autodeclarada máfia e um agrupamento que opera em Santa Catarina e que teriam se fundido sob o nome de “É tudo dois”, conforme relatos de agentes presidiários ao repórter Narley Rezende. Alguns remanescentes do Comando Vermelho estariam aí agrupados, o que revela forte fragmentação. Além da questão presidiária – afinal o Estado até agora não cumpriu a sua parte na construção de nove delas – o maior terror persiste nas delegacias distritais superlotadas, também alvo das facções e com potencial de rebelião muito forte.

Militar, a recuperação

Tal qual a rememoração de 1964, que foi com o tempo levada ao esquecimento e agora numa tentativa de revigorá-la, os militares saíram do foco político até Michel Temer convocá-los pata a malsucedida intervenção federal na Segurança do Rio de Janeiro. Ficou ali demonstrado que o ônus foi bem maior do que o bônus e que acabam atingindo a instituição, preocupação que muitos têm com a forte presença no governo Bolsonaro. Segundo o vice-presidente, Hamilton Mourão, se o governo como um todo (militares estão em seis de 22 ministérios) não for bem a instituição militar será agravada.

O curioso é que enquanto na rememoração frequente do golpe se sucediam os ataques aos militares as pesquisas de opinião pública mostravam as forças armadas como instituição em primeiro lugar. E agora com a presença forte de militares no governo, por sinal que com timbre mediador e moderador, o instituto Datafolha, em sua última sondagem, revelou que essa presença tem apoio de 60% da população, uma desmistificação em regra.

Folclore

A instituição pública que aparecia em primeiro lugar como eficiência e sobretudo imagem nas pesquisas de opinião era a Empresa de Correios e Telégrafos, e muito antes do governo Lula vinha degradando até chegar ao episódio do mensalão em que ela pinta no cenário do primeiro grande passo contra a corrupção e a impunidade que se consolidaria com a Lava Jato, que deixou a classe política e boa parte do mundo empresarial em estado de choque.

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