Toma lá da cá

Ninguém imaginava uma condição profética em Jair Bolsonaro, ora confirmada no trâmite da reforma da Previdência: pregou tanto contra a "velha política" que acabou consagrando ao dar mais R$ 3 bi depois daqueles R$ 1 bi no início da semana em emendas parlamentares para ganhar os 308 votos dos 513 deputados. Aí o que fez a turma? Justamente aumentou seu passe e o pedágio embaralhando as negociações e colocando tudo sob o risco de custarem muito mais do que aparentemente valem. Mau negociador é o que finge não querer negociar, o que só aumenta a força dos maliciosos que certamente dirão que tudo fazem pelo bem do Brasil com a aprovação daquilo que irá bem mais longe do que o Plano Real, talvez a nossa angustiada e esperada redenção, conforme a retórica dos emocionados. Neste circo dá para concluir que fazemos o papel de palhaço.

Incomparável

O informe de que o comandante do Gaeco, Leonir Batisti, teria praticado assédio contra uma colega procuradora, fato registrado pela vítima em Boletim de Ocorrência formal, é impactante quanto aos que apareceram na Vaza Jato, operação clandestina, o que no Brasil de hoje nada significa porque o vale tudo se impõe. Da mesma forma que as falas entre Juiz e procuradores não contaminam a essência da Lava Jato, não será válido alguém valer-se do episódio dessa figura importante do Ministério Público estadual para buscar atingir as operações magistrais da "Publicano", que captou rombo da hierarquia fiscal em conluio com empresários, a "Quadro Negro, que pegou o nefando arranjo que desviava recursos das edificações escolares por uma gangue de servidores públicos e empresários" e a mais recente de todas, a da Patrulha Rural, que foi montada a pretexto de melhorar a infraestrutura em contratos superfaturados.

Tanto num caso como no outro os fatos, desde que comprovados, devem ser investigados, o que não atinge fundamentalmente o sentido das operações desenvolvidas. A força, porém, de traço psicossocial sobre qualquer forma de assédio é hoje algo universalmente promovido, como se viu até na festa do Oscar cinematográfico, o que não exclui pela delicadeza do tema o sigilo e a discrição, inimagináveis com a frequência das publicações do site The Intercept Brasil, posto fora de qualquer controle.

Missão Messer

O Brasil mudou, queiram ou não os detratores do novo ciclo punitivo e que, imaginem a audácia, quer chegar no imperador dos doleiros, o celebrado Dario Messer, com cuja família a justiça acaba de fazer acordo de cooperação premiada e na qual se compromete a devolver R$ 370 milhões. Esses ajustes vieram na sequência da prisão de um dos operadores de Messer no Rio de Janeiro, Rafael Libman. Dá para lembrar nas ações de Sergio Moro em Curitiba as ocorridas no caso Banestado-CC5, em que o doleiro londrinense Alberto Youssef aparecia com destaque e depois ressurgiria (o que é discutido pelo fato de ter feito delação premiada e ter continuado no ramo) como vai aparecer no mensalão. Somente agora é que se atuou sistematicamente na investigação dos doleiros, o que revela déficit na abrangência daquela negociata internacional apoiada no banco estadual e que implicou em prisões e bloqueio de bens.

Invasão, a moda volta?

Já houve invasão da Assembleia Legislativa, bolada pelos deputados Anibal Curi e Antonio Anibelli, ambos da Comissão Executiva, para descomprimir a tensão em 1988 quando se tentou penetrar no Palácio Iguaçu e a PM o impediu com bombas de efeito moral (mas que queimam, como se deu com várias professoras). Foi um ato de inteligência que desviou a fúria dos manifestantes por alguns dias. Houve outras com a ocupação da Casa, como a de agora, a mais recente, e que funcionou como ultimato e uma em que os invasores foram levados a responder pelos prejuízos materiais nas instalações legislativas. Costuma-se dizer que uma greve é "ultima ratio", o que tem menor sentido do que a ação direta, caracterizável como revolucionária e por transpor os parâmetros da mera resistência civil. No passado bom do PT ele se valia disso para ocupar gabinetes ministeriais, respaldado na bandeira ética.

Aos manifestantes, diante das afirmações do governador, não faltou outra opção que não a adotada para tentar a pressão final pela retomada do diálogo, ainda que consciente dos seus limites. Não havendo grana o melhor não é o choro, mas o protesto, ainda que aparente não resolver coisa alguma até porque os insurgentes se acomodam com 2%, o que afinal dá ideia da situação de penúria dos dois lados e também os abençoados índices de inflação.

Folclore

Efeitos do ciclo punitivo, expresso na Lava Jato, ganham capilaridade nos estados e também nos municípios. Nunca se descobriu tanta truta como agora como se viu nessa atuação do Ministério Público estadual junto com a prefeitura de Londrina na Operação Cartas Marcadas que investiga conluio de empresas nas licitações de uniformes escolares. A secretaria de Gestão Pública de Londrina foi quem detectou as anomalias de um grupo de 11 pessoas que teriam constituído dez empresas para participar das licitações. E no meio de tudo isso, de tanta notícia positiva, o governo Jair Bolsonaro programa esvaziar a Comissão de Ética Pública da Presidência num gesto aparente de contradição em termos.

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