Submissão punida
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quarta-feira, 06 de novembro de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Submissão punida
Já não bastou a esnobada de Trump no caso da OCDE para deixar mal o seu parceiro incondicional do Brasil, pois agora tivemos a manutenção do boicote à carne brasileira. Nos Estados Unidos, diversamente daqui, não há espaço para mandões, sempre sob controle até de caráter administrativo como neste caso da inspeção técnica do Departamento de Agricultura no Brasil.
Não há muito espaço para o "jeitinho" da terra brasilis e a mediação é técnica a salvo das insinuações políticas. Acontece que o tema estava na parceria estratégica entre os dois governos e isso apenas acentua a inconveniência da submissão, posto que a recente viagem do presidente ao exterior tenha realçado seu tom pragmático. Na realidade, os americanos desejam apenas fazer uma nova inspeção, o que em si não é o fim do mundo.
Repique eufemístico
Pelo Condor ter se referido em nota ao governo petista como uma "era negra" sobre a sua decisão de boicote à Globo, o presidente do partido, deputado Arilson Chioratto, acusa a empresa de prática do racismo. Não é o primeiro descuido de linguagem de Pedro Joanir Zonta, que na campanha eleitoral divulgou carta aos funcionários pedindo o voto em Bolsonaro e caso fosse eleito não cortaria 13º e férias. O Ministério Público interveio e a rede, para evitar multa de R$ 100 mil, fez acordo com nova carta respeitando as leis trabalhistas que infringira.
Como dizia o Clube da Lanterna de Carlos Lacerda, o preço da liberdade é a eterna vigilância.
De outro lado a empresa esclareceu que o boicote é a programas nacionais e que continua investindo na RPC, a regional.
Secura liberal
Cada vez que o liberalismo ou o neoliberalismo ganha força a primeira vítima é o gasto social e, entre outras coisas, as leis trabalhistas consagrando a precarização como já havia sido feito com Michel Temer. No pacote de terça-feira (5) há manobra contábil, orçamentária, que derruba gastos públicos obrigatórios em saúde e educação. Mesmo um governo fraco, ainda que capaz de mobilizar a Câmara Federal para defender-se de duas denúncias de Rodrigo Janot, foi capaz de tocar facilmente a reforma trabalhista e a medida do limite de gastos. Um governo novo, em que pese suas mancadas, tem muito maior espaço ainda mais em favor de Paulo Guedes, visto como o homem do milagre.
Privataria
A extinção de subsidiárias das estatais, como pretende Ratinho Junior em declaração já referida sobre a Copel Telecom, deve ser alvo de uma PEC do deputado estadual Soldado Fruet que visa proibir esse tipo de medida sem audiência obrigatória do legislativo. Mesmo o simples ato de venda de ações exigiria audiência legislativa. Fruet denuncia, como se viu na reportagem de Mariana Franco Ramos, o interesse do presidente da Copel Telecom, Wendel Alexandre Paes de Andrade Oliveira, de quem pede o afastamento, por suspeitar de sua posição pela venda. Na verdade está é faltando debate sobre questão tão relevante, No caso da Sercomtel, houve debate nativista porque Londrina aposta na empresa como peça do seu desenvolvimento. Falou-se com a maior naturalidade na venda da Copel Telecom e apenas houve uma frágil reação de traço corporativo dos seus empregados. Todos se lembram que Lerner derrubou a lei de iniciativa popular que proibia a venda da Copel e só não consumou o leilão porque com o ataque às torres geminadas nos Esteites e o apagão no Brasil não houve interessados na licitação. O debate foi intensíssimo e é o que carecemos.
Lance em Bela Vista
Um projeto de iniciativa popular que reduz salários dos vereadores, prefeito e vice de Bela Vista do Paraíso coloca, uma vez mais, em teste a democracia direta da Carta de 1988. A ideia é que a medida entre em vigor em 1º de janeiro de 2021, com uma queda de 30% para o prefeito e vice e para os vereadores de 78,13%, caindo de R$ 4,5 mil para R$ 999. A proposta teve 793 assinaturas e fica visível o objetivo maior contra os legisladores, que obviamente vão reagir até mesmo por causa do tratamento desigual.
Oposição viva
Depois de muita perplexidade e muitas provocações do bolsonarismo, a oposição começa a se mexer com maior racionalidade e o pedido para que o Ministério Público do Rio faça nova perícia no áudio do porteiro do condomínio "Vivendas da Barra" para afastar suspeitas de manipulação de prova do assassinato da vereadora Marielle Franco é um sinal. Sergio Moro quer o caso federalizado, que saia do âmbito regional. O pleito é do deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) e do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Ainda nessa direção é a intenção do PT de apresentar ao presidente do STF, ministro Dias Toffoli, uma notícia-crime contra o presidente Bolsonaro por crime de obstrução à justiça ao se apoderar da secretária eletrônica do condomínio.
Folclore
Até no ambiente do marketing os chineses enfrentam os norte-americanos: para contrapor ao Black Friday, aculturado no Brasil desde 2010, a gigante chinesa Ali-Express quer criar aqui outra data de consumo, o Dia dos Solteiros, celebrado em 11 de novembro. É um pouco de oxigênio em tempo de tanto nacionalismo. Em 2018 a celebração movimentou US$ 30,8 bi e virou o maior fator de venda do comércio chinês.


