Sem saída

Quando não há saída é que chegou a hora do acordo, como se viu nestes dias com a aprovação – um drible na regra de ouro - do crédito de R$ 248,9 bi para cobrir benefícios sociais depois de uma negociação de R$1 bi para custeio das universidades e mais R$1 bi para o Minha Casa, Minha Vida. Negociando, o que tem negado sob o fundamento de que é contra essa coisa mágica e indefinível chamada velha política, tudo vira possível e até a aprovação unânime.

Constrangido pela realidade, lá se foram os pundonores de vestal. Afinal, se até o herói da Lava Jato comete pecados, ainda que voltados para uma boa intenção, por que não fazê-lo?

Resta ao governo exercer sua capacidade de persuasão e afinal dizer claramente ao que veio para levar a oposição também a uma situação-limite. A crise brasileira não depende de retórica para ser exposta e isso é argumento suficiente para que se busque enfrentá-la e, se possível, dominá-la, afinal uma causa, esta sim, comum.

A mão invisível

Como a decantada mão invisível do mercado capta situações políticas como essa tida por todos como traumática do papo entre Moro e Dallagnol: nada viu de surpreendente, posto que as especulações levassem à CPI, afastamento dos envolvidos e benefícios gerais para os processados como o presidente Lula. O bom desempenho das ações da Vale e da Petrobras, indicadores de privatização como a decisão do STF que liberou as subsidiárias das estatais, o acerto para negociar oito das treze refinarias – tudo isso levou o Índice Bovespa a uma alta de 1,53% na terça feira atingindo 98.969,00 pontos, patamar máximo desde 19 de março. Se são esses os humores do mercado – um pouco de intuição com alguma avaliação dos fatores que o condicionam - é sempre um mistério, todavia que tem um ganho relevante quando é acoplado à queda da moeda americana que encerrou o pregão, com queda de 0,88% a R$ 3,8496, menor de fechamento desde 10 de abril. Pesaram no clima a aprovação unânime do crédito ao governo e o razoável andamento da reforma previdenciária.

Promiscuidade

Lula diz ver promiscuidade em mensagens trocadas entre Sergio Moro e Dallagnol, mas nunca as captou nas suas relações com empreiteiras, a despeito do forte cerco mesmo em questões como as do tríplex de Guarujá e do sítio de Atibaia.

Amazônia

Parece inquestionável a derrota do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, em sua dividida com Noruega e Alemanha, no Fundo Amazônia, que pedem como investidoras a manutenção de sua estrutura, na qual viu restrições dentro da sua visão pragmática quanto ao ambiente com ênfase à produção.

Voltou?

Houve um tempo em que ficou célebre a chamada política dos governadores que com seu peso específico chegavam a projetar prioridades nacionais. Agora, com a questão da reforma previdenciária, dada a desarticulação política e precariedade da base de apoio, ganhou força a tese das províncias apitando estrategicamente nas demandas nacionais. Formaram frente sólida de 25 unidades, condicionando, porém, o seu apoio na questão de municípios e estados na inserção do processo, impondo, no entanto, a exclusão de quatro propostas, entre elas a retirada das mudanças nas aposentadorias rurais e no BPC (Benefício de Prestação Continuada) pago a idosos em situação de miséria. Sem negociação, nada se move. É a lição. Na condição de estado mais forte, João Doria, de São Paulo, é o porta-voz. O Paraná precisa ter mais voz, não podendo se limitar à sua inserção na Comissão de Constituição e Justiça. E no tema poucos têm a expertise do nosso Reinhold Stephanes, que tentou, lá atrás, a reforma e quase a conquistou não fosse o erro de um deputado ao votar.

Cadê os milicos?

Em passado distante, seria impensável falar tanto em privatização de estatais e muito menos de vendas das subsidiárias da Petrobras. Bastava um aceno e o Brasil parava para ouvir os resmungos decisivos do Clube Militar. Foi de lá que veio a campanha de estatização como expressão de soberania. Seus líderes eram entre outros os generais Carnaúba, Buxbaum e Leônidas Cardoso, pai do Fernando Henrique. Nada passava sem o crivo da instituição. Mesmo com tantos militares no governo não há resmungo e isso significa que o país, institucionalmente, melhorou .

Folclore

Ernesto Luis de Oliveira, pastor, mestre universitário, cujo maior orgulho era ser o pai do meia Luisinho, da seleção brasileira de 1938, é autor de um texto que mexeu com o Brasil inteiro denominado "O elogio da bosca". Contestado pelo uso da palavra, escreveu o arrazoado que ganha um tom de modernidade no meio acadêmico voltado à época para o parnasianismo. Se o orgulho de Ernesto era o filho craque Luisinho, isso se dava também com Coelho Neto e o seu rebento Preguinho, artilheiro do Fluminense.

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