Sedução da gastança
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de maio de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Sedução da gastança
Ela faz parte da nossa cultura e talvez só uma guerra para valer ou crise como a vivida recentemente pela Grécia a testaria, a nossa compulsão pela gastança. Estamos a assistir um esforço do governo Ratinho Junior para enfrentá-la e cercado de cuidados na relação com os demais poderes, aos quais tentou convencer pela redução da sua cota orçamentária e agora mais diretamente ao mexer na estrutura salarial para evitar efeitos em cascata face ao potencial de equiparações e isonomias.
Concretamente o mais prejudicado até agora é o funcionalismo do Executivo com a penitência de três anos de congelamento, ainda que em algumas áreas como a dos professores e policiais houve a compensação das progressões e promoções. O Judiciário e o Ministério Público são os mais resistentes a concessões como o demonstraram cabalmente, em escala nacional, com o episódio desgastante do auxílio-moradia e certamente reagirão ao ritual dos deputados, que pelo congelamento salarial de Ratinho pretendem estender a ratoeira aos demais.
No Brasil austeridade só pode ser admitida seletivamente, pois afinal as castas precisam ser respeitadas. Até aqui só a parte mais baixa da pirâmide foi atingida. Louve-se, no entanto, o esforço de Ratinho que o seu antecessor mal ensaiou.
Identificação inviável
Nosso presidente se escuda no exemplo de Trump até no hábito de acionar redes sociais, mas o presidente norte-americano o ultrapassa na questão do emprego em que alcançou os maiores números das últimas décadas e que Bolsonaro acredita que isso só ocorrerá no país, e em escala bem menor, depois das reformas. No horizonte nacional PIB menor (1,49%) e IPCA em 4,04%, inflação em alta. E temperado com trombadas ideológicas no interior do governo e visível no apelido dado pela ala militar ao Olavo de Carvalho, de Trotski da direita, corrigido por alguns como trote da direita.
Cortes
Cortes orçamentários na União atingem todos os setores, entre os quais o IBGE (25%) e nas Universidades (30%). O pior é que ambas as medidas foram precedidas de comentários tanto do presidente como do ministro de Educação, o primeiro pondo em discussão suspeitas sobre a Pesquisa Domiciliar Contínua do instituto e o segundo acentuando questões ideológicas. A bancada paranaense no Senado está fechada com as universidades e esperava-se desempenho de pelo menos dois deles na terça (7) em comissão da Câmara Alta, presidida por Flávio Arns, também integrada por Oriovisto Guimarães, no encontro com o ministro Weintraub.
Leniências
Deputados que foram lenientes com as ações das pedagiadas, pelo menos nem rosnaram, agora questionam o acordo firmado entre o Ministério Público Federal e a Rodonorte. Faça-se aí a exclusão de Tercílio Turini, que sempre teve conduta engajada de crítica ao sistema. Verdade que a exclusão de 80 quilômetros na estratégica Rodovia do Café, pleiteada pela concessionária e aceita, foi o alvo da pretensão dos parlamentares, que querem ser ouvidos no acordo e para tanto provocarão audiência pública sobre a questão. Estranham que o governo estadual não participou das conversações, admitidas apenas as anteriores, aquelas da corrupção, aliás envolvendo, pelo menos conforme a denúncia, boa parte da estrutura do poder. Leniência para o governo seria uma contradição em termos. Aliás, eleitoralmente foram julgados tanto Beto Richa como Requião, todos personagens do pedágio. Estrada política, pelo menos ela, afinal livre, de um que fingia fiscalizar e de outro que simulava combater na bravataria do "baixa ou acaba".
Paradoxos
A mocinha romântica sonhava em ter um parceiro como Omar Sharif. Quase chegou lá ao namorar um almoxarife.
Comidinhas
O cardápio é volta e meia alvo da política. Isso aconteceu na euforia juscelinista quando pintaram as decantadas ostras do Maine numa celebração e recentemente no flagra do ditador Maduro e a mulher num restaurante granfo do exterior, enquanto o povo venezuelano padece. Agora pintou o caso dos medalhões de lagostas e vinhos importados com premiação internacional para o Supremo Tribunal Federal, cuja licitação foi barrada pela juíza federal Solange Salgado, do Distrito Federal. Nesses anos de restrição, como andarão os cerimoniais dos nossos poderes locais, onde certamente não se oferta gato por lebre? Algum exagero será, ao menos na perspectiva popular, inevitável. No restaurante popular, que o Rafael Greca, lá atrás, queria manter a R$ 1, já chegou nos R$ 2,80.
Folclore
Fala-se muito no conceito de "frescura", e é o que parece haver nos dois lados dessa questão de cardápios de órgãos aristocráticos por sua natureza essencial como o STF, tanto na dos que chiam quanto na dos que apoiam. De qualquer modo também não justifica a revolta: afinal, queriam impor o feijão com arroz da maioria ou ainda pão com vina em banquete?


