Saldo fraco

Para uma data que se instituiu com o martírio dos sublevados de Chicago, o saldo das celebrações do 1º de Maio foi fraco, ainda que unindo centrais sindicais contra a reforma previdenciária, o que se tornará nulo se a greve de 14 de junho não emplacar que, por pretender-se geral, tem tudo para frustrar-se face à nossa experiência fajuta no ramo. A primeira experiência, efetiva e autodeclarada de direita, no país está encontrando, apesar do seu desastrado receituário e seu enfoque dominante em provocações (multas do trânsito e do Ibama, cortes de verbas incabíveis em universidades sob pretexto ideológico imaginário), forte apoio principalmente dos fanáticos da campanha eleitoral e a reação, pelo menos até aqui, da esquerda, desunida e sobretudo encabulada, só nutre o agrupamento no poder.

Fora do cantochão da liberdade para Lula, que já encontra apoios sólidos entre juristas e membros das cortes superiores, há escassa palavra de ordem, ainda que claramente voltada contra o salvacionismo imaginado pela reforma das aposentadorias e agora pelo suposto excesso de dinheiro que encheria as burras do governo e garantiria a sua reeleição. De um lado a remissão do país e de outro a sequela inevitável da reeleição, prova de que o maniqueísmo das eleições e que divide o país, como se existisse ainda a Guerra Fria, permanece. O fato é que as micharias postas como fato político-administrativo predominam e a oposição, com toda a bateção de cabeças do governo, não cria fatos correspondentes aos abalos sofridos.

Populismo

Há muito, principalmente da República para cá, o populismo é dominante no Brasil e afinal explica por que recente pesquisa mundial de acadêmicos da Universidade de Cambridge no jornal "The Guardian" aparecemos à frente de todos no ranking com 42% de adesão. Sempre se tentou mimetizar essa condição, mesmo nos tempos de Getúlio Vargas, em que se punha tal carga doutrinária como decorrente da revolução meia boca de 1930 e na ascensão de Tancredo Neves como uma nova República, e finalmente, negando sistematicamente a designação, mas praticando-a com extrema devoção, nesses quase dezesseis anos de lulopetismo, em que se tentava sugerir que estávamos em aberta sedição contra as elites, embora as do dinheiro e das empreiteiras seduzissem a nossa versão de Robin Hood, que não dava a grana para os pobres como os supostos ganhos do executivo Zé Dirceu não servissem à causa libertadora dos oprimidos.

Houve momentos de euforia como os dos anos JK com o milagre dos 50 anos em cinco e que com as obras de Brasília mais o "boom" industrial esculpiram esse consenso que aí está, e que a direita derrotou, em termos de convívio. Um setor arregimentado das forças armadas, afinal provocado em 1954 com a morte do major Rubens Vaz e que desaguou na República do Galeão com o IPM para atingir o presidente, deixou resíduos rebeldes que levaram à ameaça da explosão do gasômetro e nas tentativas "guerrilheiras" de Jacareacanga e Aragarças e que o presidente anistiou. Até aí mais um extravasamento populista como o foi o do suicídio de Vargas com sua Carta Testamento e agora no lamento de Lula que a sua condenação teria sido bolada nos serviços secretos dos Estados Unidos da América do Norte. Merecemos por isso tudo o nosso sofrimento, penitência que precisamos cumprir.

De modelo a cobaia

Um dos feitos do lernerismo, de repercussão nacional e mundial como o das experiências de mobilidade urbana, foi o do "lixo que não é lixo" que criou uma cadeia de serviços alternativos com os catadores e suas cooperativas. Agora vem o governo federal, através do ministro do Meio Ambiente, com a tese da incineração dos resíduos e possível aproveitamento fabril do gás metano. O argumento é de que a prioridade um é o fim dos lixões, a maioria dos quais se assenta, no Brasil, em áreas de proteção ambiental, típica afinal da irresponsabilidade telúrica de nossa gente. Temos conseguido resultados ponderáveis com a política de aterros sanitários, um dos últimos da Cachimba que se transformou em área de ocupação e passou por outra experiência lernerista, a das rurbanas que autoridades do regime militar vieram inaugurar no Campo de Santana.

Faz de conta

Chantagem de cobertura militar e retórica de tigrão fazem parte de um joguinho solerte entre potências guerreiras como se dá agora na Venezuela com China e Rússia dando cobertura ao ditador Maduro contra a ameaça norte americana de mandar tropas para destitui-lo. Na Síria os russos levaram a melhor e a experiência pesa e enquanto segue o show de encenações a guerra civil pode alastrar-se e aventureiros querem botar o Brasil na liça como no passado alguns colonizados queriam que interviéssemos na Coreia e no Vietnã e o povo não deixou.

Folclore

O autor de "O Choque do Futuro" e "A Terceira Onda", Alvim Toffler, esteve na capital para inteirar-se dos nossos feitos urbanísticos e o prefeito Rafael Greca o apresentou ao Pedro Lauro, dono de banca de jornais que chegou a deputado federal e usava o meio-fio das alçadas para sua palavras de ordem com dois objetivos: usar giz nas mensagens para não poluir e valer-se do fato de que era o "outdoor" adequado para um povo cabisbaixo.

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