Rememoração em balanço
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terça-feira, 02 de abril de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Com provocação até do Judiciário, tivemos a celebração de 1964 a favor e contra, o que acabou como evento democrático, posto que sua deflagração o tenha severamente afrontado. Curioso é que a mídia, quase unânime, a intitula de golpe e ditadura e com isso faz uma confissão de culpa de que, à exceção do governista “Última Hora”, defendeu abertamente a intervenção.
Rememorar obriga a esse exercício, já que os veículos de opinião agem como se não tivessem acionado, junto com outras circunstâncias como a desagregação do poder e da economia, bem menor do que o ocorrido com Dilma Rousseff, as marchas com Deus e a Família pela Liberdade, sob estímulo da CIA e de pregadores internacionais como o padre Peyton, isso sem falar na presença da frota estatudinense em Recife.
O exercício de memória, num país não muito aplicado à prática, foi bom, apesar de que nenhum dos lados tenha exibido o vigor das passeatas que operaram como um sinal civil à entrada em campo dos militares que permaneceram no pedaço por mais de vinte anos e sabem dos erros cometidos e não apenas nos bolsões de confinamento e tortura, já que a resistência aqui não se compara a da Argentina, Uruguai e Chile, o que também é traduzido no ranking de mortos e desaparecidos.
A própria ação defensiva foi fraca, o que deve tirar um pouco do ar de soberba dos que tentam dar-lhe dimensão que não tiveram. E há situações curiosas. E aí bem à brasileira, terra de Odorico Paraguaçu, como a de pessoas, que participaram direta ou indiretamente do golpe, e que poderiam acabar indenizadas na condição de vítimas.
Castas, velha tradição
Fala-se muito nas castas da Índia como se não as tivéssemos. A questão da Previdência, que tanto expressa a nossa militante desigualdade, nos arranjos em andamento, revela a intenção mais de mantê-las do que de expungi-las, como se viu na questão dos militares e agora com policiais e carcereiros. É nesse contexto que uma questão à parte, como a aposentadoria dos governadores, ganha relevância. Como falar em um mínimo de equidade ante a deformação?
É evidente que não se trata do único grupo que nada contribuiu por sua aposentadoria, já que existem as de parlamentares, outra distorção. Evidente que o exame do tema passa por um processo inevitável de judicialização na velha e candente questão do direito adquirido, por mais acintoso que tenha sido. Vale, porém, a oportunidade do debate como pretende o governador Ratinho Junior com a proposta de extinção.
Essa questão, como já demonstrei, foi decisiva numa eleição de Roberto Requião por ter defenestrado da disputa, já no primeiro turno, o candidato preferencial, José Richa, que em declaração pública defendeu a aposentadoria que o beneficiava e deu um tiro no pé. Requião mais tarde também se habilitou ao estipêndio que condenara e que o elegeu. E de todos que o usaram como denúncia só Alvaro Dias acertadamente dela não se valeu.
Alega-se que há precedentes anulatórios da instância superior, mas a referente ao Paraná, acionada pela OAB, persiste há anos sem julgamento.
Outra marcha
No plenarinho legislativo haverá nesta terça (2) nova assembleia de prefeitos e dirigentes de associações municipais voltadas à 22ª Marcha dos Municípios a Brasilia entre 8 e 11 de abril. A pauta é imensa e avalia as novas regras para o Fundo de Manutenção e Desenvolvimernto da Educação Básica (imagine-se como tratar disso na pasta atual), programa Mais Médicos, saúde indígena e nova previdência.
Austeridade em questão
Com o intento de reduzir gastos com pessoal, o trator legislativo do prefeito Rafael Greca deve impor a ampliação do regime de contratações provisórias a todas as áreas da municipalidade e manter queda de braços com sindicalistas e a minoritária oposição, valendo-se em todos os casos do projeto seletivo simplificado. É um desdobramento de outras lutas como a das terceirizações na área da saúde, levada ao Judiciário, e vencida pelo prefeito.
Quadro tenso
Apesar do restabelecimento das relações intrapoderes o horizonte não é bom ao revelar que a recuperação da economia, segundo experts, só pode se dar em 2020 e há prometidas mobilizações a favor e contra o Poder Judiciário com tudo se dando simultaneamente com a revelação de que a taxa de desemprego é de 12,4% (13,1 milhões de desempregados) e 4,9 milhões de desalentados, isso é, aqueles que já desistiram de procurar emprego e há ainda 27,9 milhões de subutilizados. Acha pouco ou quer mais? incluindo aí a rearticulação dos caminhoneiros ensaiada no Paraná no fim de semana.
Folclore
Hora de Ângelus, seis da tarde, o programa de Lourival Portela Natel era um destaque no rádio. Enquanto falava, com suas longas exaltações à Maria Santíssima, ao fundo se ouvia a Ave Maria de Gouneau. Ele fazia gestos para o técnico em aumentar ou subir o som da música e o profissional, tomado pelo clima religioso, ao sinal de baixar, não teve dúvidas e ajoelhou-se reverentemente. E isso até encerrar seu programa com a frase: “E que seja mais este dia todo em louvor à Maria”.


