Queimada, realidade e ficção
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Queimada, realidade e ficção
Incêndios florestais são comuns a essa época do ano. Quando, porém, se conectam os fatos com desmatamentos e fogo na Amazônia, as dimensões do evento crescem, politizam-se e dão fundamentos inclusive ao chio das grandes potências. De todas as queimadas no Paraná, a que teve mais expressão se deu no governo Ney Braga e a repercussão das imagens obteve efeito internacional com a massa de doações de todo mundo, União Soviética, Vaticano e EEUU. Lembro, inclusive, de um deputado do PTB denunciando o uso de leite em pó doado para fins eleitorais.
No processo militar que respondíamos na Auditoria de Guerra o jornalista Cândido Gomes Chagas, mera testemunha, burlou a vigilância dos auditores e denunciou o pagamento de matérias pelo Palácio Iguaçu sobre o incêndio no jornal "Última Hora". Era um documento –o cheque- da Comissão que tratava do assunto assinado por Flavio Suplicy de Lacerda, aquele momento já ministro da Educação do regime militar. Adensou-se o racha entre pombos e falcões do regime, aqueles ligados a Ney como os generais Castelo Branco e Geisel. Como "UH" era tido como esquerdista, daí o processo contra jornalistas que nele trabalhavam, esse incidente acabou influenciando em nossa absolvição ao mostrar o jornal como cliente oficial.
O discurso nacionalista, ante a provocação de Macron, com uso de foto antiga, respaldou a incongruência de Bolsonaro no desdém sistemático a questões do meio ambiente que marcam a trajetória de sua gestão. Pode haver porém perdas para o país em investimentos em função do tema, sensível a ONGs e, de certa forma, ao mundo inteiro.
Nasa confirma
Os alertas do Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, sobre os desmatamentos na Amazônia foram corroborados pela Nasa. Focos de calor detectados pelos satélites Terra e Aqua se referem ao corte raso da floresta e não a outros tipos de atividades sem desmatamento como limpeza de pastos, preparo de plantios, queima de bagaços e prática tradicional da coivara, componente de nossa cultura agrícola.
Alerta inútil
O governo e principalmente seu ministro da Economia, Paulo Guedes, parecem ter embarcado na recriação da CPMF, alvo de uma advertência do presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, de que esse tipo de proposta não emplaca no parlamento. A ideia é propor uma desoneração aguda na folha de pagamento em troca do tributo com alíquota de O,22%. Apenas o monstrengo fiscal muda de nome: Contribuição Social sobre Transações e Pagamentos, CSTP.
Nova restrição de Rodrigo Maia, agora ao intento de Bolsonaro de privatizar a Petrobras: "é temerário falar na hipótese até 2022 por se tratar de empresa de capital aberto, pois se mexe com o valor de uma ação sem informar antes seus acionistas e a sociedade como um todo que se pretende fazer isso".
Maia foi chave na questão previdenciária, cujo avanço se deve mais a ele do que ao governo, mas seus últimos conselhos parecem não ter sido considerados.
Fusão e jaboti
O projeto do governo Ratinho Junior, que funde diversas autarquias ligadas à agricultura (Emater, CPRA e Iapar), geraria, segundo o deputado Requião Filho, um "jaboti" com 45 cargos comissionados na Casa Civil. O líder do governo, Hussein Bakri, afirma que a questão ainda não foi debatida tanto no Executivo como entre os parlamentares. A estranheza se deu porque os cargos não seriam alocados no Instituto de Desenvolvimento Rural, produto da fusão, mas na Casa Civil.
Encrencado
Abib Miguel, o Bibinho, tentou anular no Tribunal de Justiça a busca e apreensão do Ministério Público estadual em seu gabinete sob o fundamento de que ela não poderia ser autorizada por um juiz de primeira instância. Perdeu por 2 votos a um, que já foi preso e solto várias vezes, e que está condenado a 15 anos de prisão. Incrível nessa história é que nenhum membro das comissões executivas, deputados, foi alcançado como se o Diretor Geral da Casa tivesse poderes majestáticos para a farra com fantasmas.
Sempre um voto
Toda matéria polêmica, que divide o colegiado, no STF, acaba prevalecendo por um voto, o que se repetiu agora no exame da constitucionalidade da Lei de Responsabilidade Fiscal no trecho em que permite corte de salários (congelamento, como se dá no Paraná, equivale a redução, ainda mais por quatro anos) de servidores públicos. Seis dos 11 ministros votaram contra, mas o presidente Dias Toffoli encerrou a sessão sem concluir o julgamento, o que pode gerar outro resultado pela mudança de voto. O placar se repetirá no exame da prisão pós decisão de segunda instância.
Folclore
Nada mais sensorial que o Monteirinho, funcionário do "Diário do Paraná", que costumava cheirar o jornal assim que o apanhava. "Ontem não estava bom, hoje melhorou". Ele julgava o jornal pelo cheiro e espantou-se um dia com a publicação do primeiro anúncio perfumado da imprensa brasileira do produto Dana, que funcionou, porém deu dor de cabeça por três dias.


