Promessas adiadas
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sábado, 04 de janeiro de 2020
Luiz Geraldo Mazza 
Promessas adiadas
Aquilo que é trivial em propostas de governo – apuro de ações sociais, empenho na educação básica e saúde - é sempre prorrogado ou insuficiente. Isso se dá com o governo Bolsonaro, ao menos na medida desejada pelos especialistas. Dentre as questões levantadas regionalmente por Ratinho Junior, a mais sintética era a que "faria mais com menos", um compromisso com a austeridade e a eficiência, sabidamente difícil ante a conjuntura fiscal perversa, comum a todas as unidades federativas.
Cortes de remuneração nos quadros diretivos soaram incomuns, da mesma forma que se dava continuidade ao congelamento rígido dos salários de funcionários do Executivo, tratamento desigual que já vinha sendo praticado por Beto Richa há três anos e sem a percepção de que se houvesse austeridade efetiva haveria um esforço para que a regra atingisse a todos. A noção de cortar na própria carne tinha um impulso pedagógico para um freio possível nas despesas.
O fato é que avançamos pouco face a magnitude de um cenário em que as despesas seguem mais elevadas do que a receita. A esperança é que o governo federal na relação com estados e negociação da dívida observe a diferença do tratamento dado ao problema. É evidente que o nosso caso está bem distante dos de Rio Grande do Sul e Minas Gerais e talvez mereçamos por isso assistência mais frutuosa.
Futebol e política
Nos tempos duros do regime militar volta e meia se colocava a questão da seleção e o regime, isso desde o afastamento do técnico esquerdista João Saldanha, que deu os fundamentos da equipe que levantou o tricampeonato. Tivemos as reações isoladas, como a de Sócrates na montagem da democracia corintiana, e a do solitário Afonsinho.
Bolsonaro, presidente, conta que seu prenome vem de homenagem ao grande Jair da Rosa Pinto, que passou por vários times, entre eles o Palmeiras, e até o Santos. Agora Luxemburgo se declara petista, na condição de treinador palmeirense, e no relato fala da relação do seu nome com o da socialista Rosa de Luxemburgo. Dá a impressão de engajamento generalizado, o que é bem melhor do que num tempo de restrições, já que vemos, apesar da democracia, ameaças severas às práticas libertárias num contexto em que foi necessário mostrar a incompatibilidade entre liberalismo econômico e autoritarismo e seu caráter dominantemente progressista.
Cabeça d'água
O acidente em região de cachoeiras de Minas Gerais, que matou três pessoas da mesma família, chamada "cabeça d'água", é comum no vale do Nhundiaquara, em Morretes, e que quando ocorre cria dificuldades a banhistas, notadamente os praticantes de boia. A elevação súbita do nível das águas desce com extrema força e não há como funcionar um sistema de alarme que opere preventivamente.
Um dos lugares mais ricos do Paraná em cachoeiras é Prudentópolis, e a arte de contemplá-las é uma das práticas mais comuns de ecoturismo.
Martírio
A decisão de Bruno Covas, em tratamento contra o câncer, em reafirmar a sua candidatura à reeleição para prefeito de São Paulo lembra o ocorrido no Paraná, anos passados, com o gênio criador da Copel, Pedro Viriato Parigot de Souza, que como vice-governador havia assumido o posto com a renúncia de Haroldo Leon Peres, flagrado em ato de corrupção contra a empresa que construiu a Ferrovia Central do Paraná, que liga Ponta Grossa a Apucarana. Seu pessoal de marketing, ante uma gestão centrada em extrema austeridade, cunhou uma frase: "O Paraná é um dever. Vamos cumpri-lo".
No final de sua trajetória, ante a boataria de que outras pessoas assinavam seus decretos (a irritação era de setores da imprensa habituados à ração no momento reduzida), fez questão de aparecer na Boca Maldita em condições precaríssimas de saúde.
Lei e abuso
Entrou em vigor a lei contra o abuso de autoridade, resposta da classe política acuada com os efeitos da Lava Jato e visando conter suas imposições com prisões preventivas e de longuíssimo prazo e condução coercitiva sem intimação prévia. Sergio Moro, erigido à condição de herói (chegaram a fantasiá-lo como personagem de história em quadrinhos), fez o que era possível para evitar mudança legal que punha em xeque todos os valores da luta contra a corrupção. Atingindo as polícias, Ministério Público e Judiciário, principalmente, ela é olhada com algum ceticismo por parte de especialistas de que conduza a uma onda de sanções punitivas, até porque as representações têm que ser ajuizadas pelo Ministério Público e julgadas obviamente por um juiz. O abuso de autoridade é uma constante no país como praxe, embora varie de intensidade conforme as circunstâncias de cada época.
Folclore
Napoleão Teixeira, docente de Medicina Legal, dá uma aula sobre formas de fetichismo sexual e surpreendentemente citando "A pata da gazela", um abrasileiramento da Cinderela, trata o rapaz que anda atrás da dona do sapatinho como se aquilo se transformasse numa fixação em cima de um fetiche. Cita outros casos do cinema e da literatura e neles inclui peças de vestuário e parte do corpo. E encerra sua palestra com a afirmação de que há pessoas que só alcançam o prazer erótico se a parceira estiver com uma calcinha de determinada cor. Como se tomado pela catarse, o aluno mais velho da turma o interrompe quase gritando: "Preta, professor, preta!"


