Processos à saturação

Só há uma forma de reação da Lava Jato: dar continuidade ao fluxo judicial, como está fazendo, posto que o ideal seria uma intensificação, numa espécie de resposta à clandestinidade das informações que tentam desfazê-la e que de fato a atingem. É interessante ouvir o Sergio Cabral entregando parceiros de Caixa 2, a denúncia contra o procurador carioca que recebia propinas para dar pareceres de interesse de um consórcio na linha 4 do metrô, Beto Richa e mais cinco em fraude em licitação na PR-323 devidamente denunciados. Quem sabe a leitura das denúncias – no caso de Richa, com o envolvimento em cotas de imóvel em valor subfaturado por executivos da Tucuman do Consórcio Rota de Fronteiras - neutralize parte dos efeitos dos vazamentos pelo fato de traduzirem a agenda da corrupção sob exame.

No Paraná há reviravoltas como a representada pelo ato do STJ que suspendeu a redução das tarifas do pedágio pelo TRF4 desde ontem, mas essas oscilações fazem parte do jogo, pois o mais relevante é a manutenção da vigilância.

Celebração

Em meio a tantas notícias ruins, como as relativas à Sercomtel, Londrina celebra as boas como a do aporte de R$ 193 milhões no aeroporto Governador José Richa, o quarto mais alto no leilão do Bloco Sul, no qual o de Curitiba (Afonso Pena) terá inversão de R$ 865,7 milhões e o de Foz do Iguaçu de R$ 479,7 milhões. Bom para todo o Paraná. Em Foz, no fim de semana foi entregue pela Infraero nova sala de desembarque doméstico de 1.200 metros quadrados.

Passeatas

Estamos em pleno ciclo das passeatas, ora da direita, ora da esquerda, e pelo jeito isso se manterá. A havida no início da semana dos servidores públicos, com mais de 10 mil pessoas, impressionou e mostrou a irrealidade da forma como o governo a encara ainda que tenha razão em exigir sua suspensão para dialogar. O dado mais forte sobre o tema veio de um bloco de entidades em Londrina pleiteando em manifesto o fim da greve e o respeito à ordem fiscal, que não deixa de ser apoio ao governo. Era preciso que o exemplo londrinense frutificasse com mais instituições se envolvendo no debate do tema.

PF autônoma

Está consolidada a autonomia da Polícia Federal, o que já ocorria nos governos de Lula e Dilma, sem que os ministros da Justiça interviessem. Repete-se agora, como se deu ao longo do tempo, tanto do mensalão como do petrolão, sob a orientação de Sergio Moro, que pegaria mal e tanto quanto os vazamentos em sua biografia se agisse ao contrário. Além das prisões de gente do gabinete do ministro do Turismo (Alvaro Antônio) a PF indiciou quatro candidatas do PSL de Minas Gerais suspeitas de envolvimento no laranjal de desvio de verba pública. O ministro, apontado como beneficiário do esquema, balança, balança, mas até aqui não caiu.

Ex-ministros

Já tivemos o encontro de ex-ministros da Educação, de ex do Meio Ambiente e agora os ex da Ciência se reunindo para chiar contra as ações nessas pastas do governo Bolsonaro. É mania nova e adequada à atmosfera radicalizada da política, o que valoriza o regime de opinião pública. Aqui no Paraná isso não é necessário porque os de hoje estão "assim", ligados, aos de ontem.

Venda fracionada

Tenho saudade do tempo em que a gente ia ao armazém e pedia duzentos gramas de arroz, trezentos gramas de feijão, um decalitro de álcool, dois metros de barbante que eram medidos ao longo do balcão e assim por diante. E essa era a maior ocupação dos atendentes no empacotamento da mercadoria e nas artes de fazê-lo em pequenas dimensões. Essa fragmentação acabou quando tivemos a inserção das mercearias, que afinal precede o domínio dos supermercados. Àquele tempo os produtos eram exibidos nos sacos ou em dependências especiais, caixotes, que os negociantes manipulavam. Também a venda unitária de cigarros era um dos macetes. A massificação acaba impondo a padronização no empacotamento. Isso vem a propósito da venda de remédio fracionada, contemplada em decreto de 2006, para o cliente comprar só o número necessário de comprimidos e que não emplacou até hoje, treze anos depois. A dificuldade de rastrear e controlar lotes seria a causa determinante da não adoção, segundo a opinião dos industriais.

Folclore

Todos os temas da Guerra Fria eram filtrados em congressos estudantis ou em assembleias de diretórios. Quando decidiram pela execução do casal Rosemberg (Julius e Ethel) acusado de transferir segredos estratégicos da área nuclear em favor da União Soviética, direita e esquerda se engalfinhavam em disputa homérica, madrugada adentro. O radicalismo era tal que as propostas de intervenção já vinham pasteurizadas, mediadas. Como a direita percebeu que a esquerda estava em maioria partiu para a pesada, sabotando até a iluminação da sala em que se realizava a assembleia, isso tudo para aprovar um telegrama que se pretendia encaminhar ao papa pela suspensão da pena de morte. Houve a vitória e de madrugada, sob o chuvisco de Curitiba, alguns cantaram a Internacional inutilmente: o casal foi executado, mas o telegrama, apostavam, teria chegado ao Santo Padre. É o lado ingênuo e poético das ilusões tangidas pela toxina da ideologia.

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