Ponderação válida

Fernando Henrique Cardoso tem sempre intervenções moderadoras nas questões brasileiras: entende que a Lava Jato, por seus feitos positivos, os primeiros na luta contra a impunidade militante do país, não pode ser julgada por seus hipotéticos pecados veniais, que afinal não comprometem a essência jurídica e ética dos seus atos e entende como oportunista o fato de alguns dirigentes do PSDB quererem expulsar militantes, no caso Aécio Neves, por artes do prefeito Bruno Covas, de São Paulo, e que tenham se envolvido em casos de corrupção, atirando-os às feras. Por sinal que em decisão recente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Cade, o governo do avô, Mario Covas, está relacionado entre os que não viram a formação de cartel no esquema de metrôs e trens de São Paulo, nas gestões de Geraldo Alckmin e José Serra.

Expulsar quem ainda não foi julgado e condenado equivale a lançar bosta na Geni, como na música do Chico. O PT expulsar Lula, patrimônio nacional, segundo FHC, seria herético.

Ideologia sem QI

A prevalência do instinto sobre o pensamento, a postura permanente pelo anti-intelectual, é a linha geral do bolsonarismo sob construção como sistema, apesar de se dizer que tem por trás de tudo um pensador na figura de Olavo Carvalho. O último dos seus feitos se vincula a um dos primeiros, submissão aos EUA, com a desejada nomeação do Eduardo Bolsonaro para a embaixada brasileira em Washington. Alega o pai que o filho é muito amigo de um dos rebentos de Trump e isso facilitaria a tal unidade. Se tal acontecer sem resistência é de concluir-se que o Itamaraty deixou de ser um estamento. Em qualquer país uma heresia desse porte teria um inevitável confronto no campo estamental, isso sem falar em outras instâncias como a de provocar a justiça ou até um bloqueio do Senado, o que confirmaria aquilo que se vê no debate da Previdência, num ato de autonomia congressual, embora dessa feita oposto aos intentos oficiais .

O bolsonarismo, sustentado nas redes sociais, é algo muito forte e que os oposicionistas (por onde andarão esses seres extraterrestres?) subestimam, não percebendo a crença cega, mesmo quando fartamente desmoralizada, vertida em fanatismo. A lógica deles é particular, ajustada ao nicho clânico e a mais nada. Quando forem deflagrados atos de violência, além do ulular contra instituições sugerindo que elas não deixam o presidente governar, e tivermos sua estruturação em núcleos organizados, veremos o tamanho da encrenca: derrotas de hoje, que já não são poucas, como se viu na questão previdenciária, justificarão amanhã atos de retaliação pelo falangismo.

Ainda a PR-323

A Lava Jato não para e nessa semana o Ministério Público Federal apresentou as alegações finais do caso da duplicação da PR-323, primeiro processo paranaense com a sua instrução encerrada, independente do outro, ainda em trâmite, que tem Beto Richa como réu. É pedida a condenação de dez pessoas como Jorge Atherino, operador do ex-governador, Deonilson Roldo, ex-chefe de gabinete, e mais oito pessoas. Há registros de cinco pagamentos de propina de setembro a outubro de 2014 que totalizaram R$ 3,5 milhões, endereços de entrega em São Paulo em condomínio ligado à sogra de Atherino. Afora as penas de prisão, o MP prevê um valor mínimo para reparação de danos de R$ 4 milhões.

Mais precariedade

Depois da reforma de Michel Temer, que precarizou ainda mais as relações de trabalho e isso num momento de extrema fraqueza do movimento sindical e de suas centrais, bloqueadas pela falta de dinheiro, a comissão mista da MP da Liberdade Econômica aprova mudanças em 36 artigos da CLT, dentre os quais o trabalho aos domingos em todas as categorias. A luta havida nas cidades, ao longo dos anos, pela folga e a regulação do trabalho, sempre obtida com extrema dificuldade, dá uma ideia dos próximos embates e num momento de fragilidade do aparato obreiro com a supressão do Imposto Sindical. A alternativa de obter adesão por assembleia em cima de acordos coletivos está sendo contestada fortemente, o que ameaça tornar inócuo o recurso de decidir paradas em assembleias.

Abono de Natal

Dois argumentos sacados pelo governo no reajuste são além do dispêndio com licença-prêmio que chegam a R$ 2 bi o abono de Natal que seria sem aumento algum para evitar o estouro do caixa. Daí a razão dos 2% apenas em janeiro de 2020, conforme o líder do governo, Hussein Bakri, no encontro de sexta-feira com os sindicalistas. O Fórum dos servidores estuda programa de manifestações em todo o Paraná como a havida no meio da semana em Londrina diante do Núcleo Regional de Educação. Há risco ainda do 13º ser parcelado.

Folclore

A opinião pública, pelo menos na visão de institutos de pesquisa, rejeita radicalmente as facilitações de Bolsonaro em relação à posse e porte de arma. O Datafolha mostrou que 70% da população reprova as facilidades pretendidas no porte de armas. A proibição à posse de armas, que no levantamento anterior era de 64%, subiu para 66%, índice mais alto desde 2013. Pátria amada, salve, salve; não armada!

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