Paranoia rotineira
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de setembro de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Paranoia rotineira
O cenário político brasileiro está aberto às visões conspiratórias e, mais do que isso, à paranoia. Buscas e apreensões no gabinete do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, são vistas como represália da Polícia Federal e o Ministério Público porque negadas anteriormente por Raquel Dodge e autorizadas agora pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF. Num momento de questões relevantes como a reforma previdenciária, a designação de Augusto Aras para a Procuradoria da República e mais a indicação de Eduardo Bolsonaro à embaixada dos EEUU, todas com trâmite na Casa, essa mexida na articulação do governo é, para dizer o mínimo, traumática.
Sinais de revitalização da Lava Jato são vistos em mais uma investigação de fatos ocorridos em 2012 e 2014, quando Bezerra Coelho era ministro da Integração Nacional e teria recebido com o filho, Fernando, deputado federal, propina da OAS, acusações que apareceram em delações de empreiteiros e empresários. Como o ministro Luís Roberto é defensor da Lava Jato e não se abalou e nem viu sinais de anomalia nas degravações do Intercept Brasil, aí choveram as lamúrias de que a independência dos poderes estava afetada.
O rigor desse divisionismo atinge o governo, que na origem tanto se beneficiou das revelações da força-tarefa de Curitiba e do juiz Sergio Moro, fundamentos do massacre anti-PT. Pelo jeito esse clima não se altera e é suficiente para afastar qualquer mediação de racionalidade.
Uma das versões correntes é a de que a operação da Polícia Federal seria uma retaliação de Sergio Moro em virtude de o senador ter forte oposição contra pontos do pacote anticrime. Essa é a opinião do advogado André Callegari, patrono do senador.
Diárias em exame
O Tribunal de Contas está intrigado com as viagens de vereadores e o respectivo problema das diárias e decidiu fazer uma operação rigorosa, pente fino, nesse tema. Há, segundo se apurou, 795 prestações de contas a descoberto, relativas até a 2007. E como decorrente disso o TC botou a sua área de inteligência sobre empresas acusadas do fornecimento de certificados falsos de participação em eventos e que dariam respaldo fático às diárias.
Dura no postos
Alegando que os postos de combustíveis teriam aumentado em até 5% os preços dos derivados em cima do ataque de drones às refinarias da Arábia Saudita, o presidente Bolsonaro quer dar uma dura na questão e mandou investigá-la. É que essa mexida nos preços se deu antes do reajuste adotado pela Petrobras. Como sempre, há ameaça da formação em cartel no alinhamento dos preços. Raramente autoridades judiciais decidem por essa formação, mas em Londrina isso já ocorreu.
Sortudos
O gabinete da liderança do PT na Câmara Federal virou ponto de romaria depois que alguns dos seus servidores acertaram em bolão o prêmio de R$ 120 milhões da Mega-Sena repartido em 49 cotas. Ainda tiraram sarro da forma como ganharam: socialista, como acentuou Marcus Braga, um dos coordenadores da liderança, que participou com uma cota de R$ 10.
Revanchismo
Deltan Dallagnol, em palestra num congresso paranaense de Radiodifusão, afirmou que há revanchismo em marcha contra a Lava Jato e criticou o STF por haver anulado a condenação de Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e Banco do Brasil. Entre as medidas criticadas destacou a proibição do encaminhamento de informes da Receita e do Coaf para o Ministério Público e vê como extensão de tudo isso a possível mudança de entendimento sobre prisão pós decisão de segunda instância de julgamento.
Gastos
Apesar de comprometer e muito o orçamento e não ter fixado limites de gastos eleitorais, as propostas do Congresso, segundo cálculos do Ministério da Economia, consumiriam 94% da Lei de Meios no referente a despesas obrigatórias. A situação de imobilidade leva, pelo menos em algumas áreas, ao retorno da tese de rediscutir o teto dos gastos.
A distância
Justamente no momento em que aumentam as restrições ao ensino a distância ao ponto de alguns conselhos de exercício profissional fazerem restrições extremas aos formados pela fórmula EaD, capta-se uma queda acentuada nos cursos de graduação presencial. Foi pelo menos o revelado no Censo de Educação Superior, que mostrou o ingresso de 2,07 milhões de calouros no ano passado, menor número desde 2011. Desde 2014 a modalidade perde participação, enquanto os cursos a distância seguem em processo de expansão, ainda que submetidos a críticas radicais como essas dos próprios conselhos do exercício profissional sob o fundamento de que há disciplinas que só funcionam no modelo presencial.
Folclore
Das barrigadas da imprensa paranaense uma das maiores foi a do "O Estadinho", que noticiou em manchete a morte do presidente e líder da Iugoslávia, o Tito, quando ele estava ainda numa boa. Deu a nota profeticamente, muito antes de ela, de fato, acontecer.


