O primeiro passo

A aprovação de um tema sabidamente impopular como a reforma da Previdência colocou em destaque a Câmara Federal e seu presidente Rodrigo Maia, que praticamente assumiram o comando das operações, embora no final a mediação de Bolsonaro em torno de emendas que chegam perto de R$ 6 bilhões tivesse facilitado a goleada de 379 votos a 131, que para fragilidade da democracia expõe a dimensão minimalista da oposição. Aberta a porteira das negociações poderemos, se é que ainda há espaço no segundo turno, ter outra enxurrada para mostrar a dicotomia entre "nova" e "velha" política, o permanente drama da distância entre teoria e práxis nessa casa de tolerância comportamental, impermeável a qualquer tentativa de cura, que é a política.

Votados os destaques teremos o segundo turno das votações e, na sequência, a tramitação no Senado, onde a bancada paranaense, sem fissuras ideológicas, votou agora firme pela criminalização do Caixa 2, do pacote anticrime de Sergio Moro e numa exaltação da República de Curitiba, onde fluiu a Lava Jato da decência e da brasilidade de sua força-tarefa, contra a qual os permeáveis à corrupção montam hoje seus bivaques e trincheiras de retaliações.

Semelhança

Manifestação contra suposta esquerdização da Igreja Católica de Londrina reproduz em tudo o clima psicossocial vivido pela comunidade em 1964 em função da Guerra Fria e das sequelas ideológicas. Tivemos mais gravames no segundo polo urbano em termos de processos e denúncias de tortura, proporcionalmente, do que na capital. Algumas categorias como as dos médicos tiveram papel de realce nesse clima. Hoje, como naquela época, tudo era praticamente comandado pela toxina da radicalização e uma avaliação à distância se torna necessária para evitar que ao final de tudo, como se deu no passado, não se troque o pensamento único de uma facção por outro diferenciado apenas na cor e assegurado pela autoridade legal.

O abominado Centrão

Em 1988, no andamento do processo constituinte, aquele sim extremamente dividido em postura doutrinária, surgiu para horror dos colocados à direita e à esquerda o Centrão, que se definia por seu pragmatismo negociador e que deflagrou, queiram ou não, os havidos agora. Daí a homenagem que Rodrigo Maia lhe prestou em seu discurso ao acentuar que "o Centrão, esta coisa do mal, é que está fazendo a reforma". Na Carta de 88 houve uma linha dominante de centro-esquerda, inicialmente empenhada em parlamentarismo, o que deixou o seu texto um tanto quanto ambivalente na partilha do poder. E houve a recusa ainda da bancada petista em assinar o texto.

Isolando Beto

Como no PSDB, em função das posições de João Doria, candidato presidencial, pretende-se cortar militantes que exerceram o poder e foram ou estão sendo condenados, o prefeito de São Paulo, Mario Covas, ameaça deixar a agremiação se dela não for expulso Aécio Neves, o que vai mais longe do que uma aspiração pessoal. Mas e os outros como Geraldo Alckmin e José Serra, enrolados até o pescoço nas questões dos trens e metrôs e do Rodoanel, são protegidos?

Embora o envolvimento notório de Beto Richa em vários processos, alguns dos quais já lhe renderam prisão, há muita cautela nos quadros do partido em qualquer tipo de manifestação, a favor ou contra. E é a forma até aqui expressa por seus ex-liderados para não lhe criarem novos e desagradáveis constrangimentos. Afinal, pegaria mal atuarem contra um campeão de votos que se elegeu e reelegeu prefeito da capital e governador no primeiro turno.

Contra o reajuste

A Associação Comercial do Paraná fez manifesto contra o reajuste do funcionalismo estadual na mesma linha das entidades do setor privado de Londrina com um diferencial: comparou com dados da Relação Anual de Informações Sociais, Rais, a média salarial de 2002 a 2017 do setor privado, que no primeiro caso era de R$ 658,62 e no segundo de R$ 2.367,55 e que no público chegava a R$ 995,95 e R$ 4.217,16. Segundo o paralelo, a distância do salário dos barnabés, que era de 51,2% superior passou, quinze anos depois, com recessão e tudo mais, a 78,1% sobre os da área privada. Como se vê no consumo é maior a participação dos funcionários estaduais porque seus colegas da área privada ganham muito menos. E o PT, quando aposta no aumento do consumo como saída estratégica para a economia, favorece sindicatos de uma área, a pública, em que domina como todos sabem.

Folclore

O sociólogo e ensaísta Edson Carneiro, uma das maiores expressões do folclore nacional, ao ver manifestações dos grupos de origem étnica do Paraná, pela riqueza dos seus aparatos, achava incabível aparecerem no mesmo palco ante as expressões tidas como autóctones. À época em que a questão foi colocada ao lado das etnias havia o fandango e o boi de mamão do litoral e ainda o manifesto afro das congadas da Lapa e as cavalhadas de Guarapuava. Parece que hoje tudo se sofisticou nos reizados e no maracatu com muita cor e beleza.

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