O país do mais ou menos

Há piada de japonês, não daquelas do Bolsonaro, com um sentido até filosófico, em que ao comparar reações do seu país com as do nosso, afirma que o Brasil é o país do mais ou menos e foge das definições. Tivemos recentemente um exemplo com a publicação da Pesquisa por Amostra Domiciliar Contínua do IBGE que reafirma o conceito da anedota: de um lado a verificação de que nossas taxas de ociosidade no trabalho são elevadíssimas – o que aliás fundamentou manchetes – e de outro um sinal de melhora no fato de que após 16 trimestres tivemos o maior número de empregos formais. Não há mais ou menos, exposto de forma tão essencial, como no exemplo. A observação positiva veio com a clave conceitual de que isso não indicaria tendência sustentável para por em destaque a circunstância de que muitos dos que estão empregados se acham subutilizados. Se é posta a massa dos chamados desalentados, isso é, aqueles que desistiram de procurar emprego, a interpretação forçaria o sentido negativo.

Diga-se a propósito que o pessimismo é uma constante em nossa esquerda, daí porque não absorvia os PIBs gigantes do regime militar, apesar de este seguir muitos de seus mandamentos como o da intervenção e da quantidade, nem sempre com qualidade, das estatais. É o Brasil do mais ou menos e que por isso revela dificuldades para bem definir as coisas, como se vê no andamento da reforma, afinal deve ou não incluir estados e municípios?

Por sinal que antes estávamos mais ou menos à esquerda e agora mais do que menos à destra.

Eleitoral ou comum?

Delitos como os de Beto e Pepe Richa no caso da Patrulha do Campo são da competência da Justiça Eleitoral ou a criminal comum? Não dá para aplicar a regra referida do mais ou menos. A defesa dos acusados já havia pleiteado, lá atrás, essa transferência quando o STF em março decidiu pela competência da justiça eleitoral no julgamento de crimes comuns conexos a delitos eleitorais como caixa dois. O juiz Fernando Bardelli Silva Fischer, da 13ª Vara, negou o pedido de defesa, alegando que se trata de manobra protelatória, e nessa mesma presunção negou pedido de inclusão de 51 testemunhas. Advogados acusam o juiz de suspeição, a mesma arenga dos advogados de Lula.

A decisão do STF por 6 a 5 animou especialmente a classe política e os atingidos da Lava Jato ante a tradição de tolerância em relação aos temas e exposto no fato inquestionável das taxas de impunidade na área e de sua escassa formação para o campo essencialmente criminal. Aliás, mesmo quando fica bem clara a ação delituosa ela se torna amenizada pelo fato de ter sido feita no Caixa 2.

Focos revelados

A questão relativa aos contratos públicos de manutenção e reparos da frota pública está na ordem do dia do governo Ratinho Junior e a cada revelação o espanto pelo fato de a onda, já identificada em 2015 pelo Gaeco, ter continuado o seu fluxo devastador sem esforços mínimos para contê-la. Se isso se deu em espaço tão simplório, capta-se a vulnerabilidade estatal já evidenciada em operações como a Publicano, envolvendo a hierarquia da Receita estadual, e a da "Quadro Negro", em que gente ligadíssima ao governador de então, Beto Richa, manipulava os desvios contratuais, como a delação de Maurício Fanini deixou claro.

Dados preliminares no caso da frota indicam prejuízos superiores a R$ 100 milhões, o que é dez vezes maior do que a economia com o enxugamento das secretarias, ponto de honra da gestão Ratinho Junior, que diante dos fatos não pode ver o conjunto do governo com o certificado da compliance. Os episódios ainda não justificariam um "pente fino", mas é preciso agir preventivamente e isso bem antes de que processos em andamento das gestões anteriores atinjam componentes da atual.

O foco

João Doria, governador de São Paulo, decidiu esvaziar a sua estatal viária, a Dersa, antes de extingui-la ao rescindir contrato das duas principais obras. Trata-se de ação lenta e gradual, mas firme, para atingir o foco da corrupção tucana que abrange vários governos e que ganha evidência com a prisão e possíveis revelações de Paulo Preto, apontado como operador master nas tortuosidades do Rodoanel.

Centrais testadas

Até aqui a nossa praxe de greve geral é frágil, mas teremos um novo teste para as nossas centrais sindicais dia 14. Elas têm que fazer esforço equivalente ao da bancada do governo no Senado para salvar o pente fino do INSS da caducidade. Pretensão das lideranças sindicais é botar nas ruas o mesmo número de pessoas de abril de 2017 contra as reformas trabalhista e previdenciária de Michel Temer. Convenhamos que o apelo da época era bem menos complexo do que agora.

Folclore

Em 1964 quebrei o braço esquerdo numa pelada de fim de semana. Aí o jornalista Aloysio Blasi escreveu no gesso "condenado a depender da direita". No depoimento que dei num gabinete do Quartel General no processo contra os jornalistas da "Última Hora" houve uma pergunta a respeito da piadinha amistosa. Nada se perdia, tudo se transformava.

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