Um quadro de extrema calamidade não autoriza a suspensão ou desprezo de rituais, mas eles nunca foram tão dispensados ou agredidos como agora. É o Judiciário legislando sob a alegada omissão parlamentar no tal do ativismo, é o Executivo desprezando a autonomia dos outros poderes e até estimulando a ruptura democrática. A ida do presidente ao Judiciário, em marcha batida com empresários, em defesa do fim da quarentena, que todo mundo civilizado adota, é apenas uma consequência como a da interpretação extensiva de um ministro do STF contra a designação de um delegado na Polícia Federal.

E o pior é que isso se dá num ambiente de exacerbação ideológica quando o fanatismo transforma isolamento sanitário e ativação da economia em valores de esquerda e direita com a fúria selvagem das torcidas de futebol. Assim também em relação a qualquer demanda entre governo e o STF, como se vê no caso da gravação da reunião ministerial, mas também no anterior do veto à nomeação de Alexandre Ramagem. Pedir o clássico "modus in rebus", a moderação nas coisas aparenta, embora sua procedência, um apelo inócuo. Evidência maior da perda de rumos está aí em nossa cara com o afrouxamento do isolamento que levou o governo de São Paulo a estender a quarentena até o fim de maio, os ritos desprezados. De repente nos cortam o rito de votar que precederá o de pensar.

Ambiguidade

O temperamento do presidente é ambivalente, como se viu, outra vez, agora no caso da ajuda a estados e municípios quanto ao privilégio concedido a algumas categorias, entre elas novamente policiais, para escapar do congelamento salarial. Bolsonaro interveio em favor das exceções e agora, para mostrar-se alinhado a Paulo Guedes, assume o compromisso de vetar tais dispositivos. Se o fizer age como presidente e não como candidato à reeleição. No meio da explosão assistencial, imposta pela pandemia, um discreto sinal de austeridade. A parada, porém, não será fácil.

Na pior

A forma como o país enfrenta o coronavírus é criticada por revistas científicas. Na "Lancet", publicação britânica, um editorial aponta Bolsonaro como maior ameaça contra a Covid, conceito semelhante ao de outras publicações.

Escolas

O Procon paulista multa escolas privadas por não darem descontos na pandemia. E isso se dá num momento em que os pais optam pela rede pública por causa das demissões e redução de salários. O contingente aqui no Paraná teria atingido 30 mil que optaram pela rede pública. Com a perda de clientes agrava-se a situação já extremamente anômala das empresas.

Folclore

No furor ideológico, visível na redução maniqueísta de bem e mal, tudo é orquestrado em função de dicotomia ora entre quarentena e abertura do mercado, e agora em função da ida de Bolsonaro e empresários ao Supremo Tribunal Federal, estamos com a falsa opção entre CPFs e CNPJs, isso é, entre pessoas físicas e pessoas jurídicas que morrem em função da Covid-19. Seria até uma anedota não expressasse tanto vigor na marcha célere da desumanização.

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