O Brasil classifica o emergente como prioritário, daí a dificuldade de ter perspectiva do longo prazo. Um exemplo minimalista, mas de impacto à população, está na greve dos transportes coletivos em Londrina: queima-se aí a tentativa do prefeito Marcelo Belinati em reorganizar o sistema através de nova licitação. A imposição paredista, como se dá em Curitiba em escala maior, com interesses convergentes entre patrões e empregados nada sutis, revela o quanto é difícil fugir do imediatismo e buscar soluções que coloquem como prioridade o atendimento à população pela qualidade do serviço, harmonizando interesses do capital e do trabalho.

Curitiba detém um sistema considerado modelar, o que não significa que esse pacto favoreça o usuário e observe regramentos pelo equilíbrio das relações envolvidas. Em Londrina grevistas não respeitaram a decisão judicial, tardiamente adotada, para a retomada, ao menos parcial, dos serviços. Na capital há mais experiência nessas tensões, pois lá no início do sistema, anos 50/60, empresários fizeram dois locautes, escondendo as frotas em quixotescas batalhas que acabaram perdendo e hoje se consideram donos do pedaço, já que é mais fácil manter caixa preta do que ocultar ônibus.

Beto livre

Beto Richa ganhou a liberdade, mas limitada, já que submetida aos rigores do preso domiciliar e de quem é acusado de obstrução judicial. Enquanto nas decisões do STF e STJ foi aureolado com salvo conduto e não se discutia a hipótese da obstrução, existente e com provas, na operação “Quadro Negro”, a outra, mais factível pela capilaridade da questão e o peso das delações no caso da “Integração” na sempre obscura trajetória do pedágio. Cautelas assumidas pela decisão liberatória indicam rigor técnico e há quem veja aí algo que poderia militar em favor de Lula, ainda mais quando o Judiciário, a pedido da OAB nacional, decidiu adiar o julgamento da prisão pós decisão de segunda instância que divide o colegiado em posturas que aparentam facções mesmo quando escudadas na boa doutrina e jurisprudência. Urge, aliás, tirar do exame o caso específico do ex-presidente, razão pela qual cresce a corrente, que esclareça-se não é de esquerda, que defende a prisão domiciliar para Lula, que pra começo de conversa custaria muito menos ao governo.

Carestia

A cesta básica não é o componente mais significativo da planilha do custo de vida, mas é, sem dúvida, o que mais coloca sob desconfiança o índice da inflação. O feijão, símbolo da alimentação brasileira, em um ano – março a março – subiu quase 58%. O fato é que a cesta básica, conforme ponderações do Dieese, em um ano subiu 10%. Percebe-se que numa inflação de 4%, a cesta lhe aplica uma goleada, de duas vezes e meia.

O pior é que os chamados preços administrados - combustíveis e derivados, água e energia - sobem descontroladamente. Oscilação na cesta é menos constante do que na Bolsa, mas no quadro atual de taxas elevadas de desemprego, o pior que poderia ocorrer seria exatamente o desembestar da inflação, o da carestia já se insinua.

Cocaína

Mais uma tonelada de cocaína foi apreendida pela Receita Federal no Porto de Paranaguá, dessa feita em meio a uma carga de compensados que seguia à Europa. Do começo do ano até agora quase quatro toneladas, boa parte delas em contêineres, foram contabilizadas, o que dá a entender pela frequência que passou a ser como clandestina uma das aplicações do terminal. A eficiência da Receita não é uma garantia, já que pelo jeito vale a pena o risco e isso visível na frequência das apreensões. Fica exposta a vulnerabilidade dos nossos portos, que carecem de cobertura e vigilância mais adequadas, como se não bastassem casos como o de Michel Temer em Santos.

Pobreza

Levantamento da “Folha de S.Paulo” em cima de um relatório do Banco Mundial estima em 44 milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 5,50 (R$ 21,20) por dia entre 2014-2017 em nosso Brasil tropical. Houve a interferência mais pesada da recessão até 2016, mas a conjuntura atual não anima no sentido de uma reversão significativa.

Definição

Latinos já diziam “Omnes definitio periculosa est”, algo como sugerindo que toda a definição é de fato perigosa. Por exemplo, o que é a nova política do Brasil, afinal tão proclamada, mas até aqui não definida ou melhor detalhada. Tanto que o presidente Bolsonaro, no encontro com dirigentes partidários, voltou a abordá-la, mas mantendo a aura de coisa misteriosa, da negação genérica do “toma cá, dá la”, do que ela não é, sem clarear o que é. Enquanto isso, a Polícia Federal toca, em sigilo, investigações sobre a participação do ministro Marcelo Alvaro Antônio, do Turismo, no esquema de laranjas candidatas do PSL em Minas Gerais. E há ainda aquela situação perturbadora de movimentações financeiras incomuns do Coaf, também no devido exame.

Folclore

Num dos movimentos contra o aumento da carne em Curitiba houve prisões de estudantes, e quando estes cercaram o Palácio São Francisco o Chefe da Casa Civil, professor Milton Carneiro, sugeriu que o governador Munhoz da Rocha os recebesse e, segundo a lenda, Bento teria feito o gestual da banana com os braços ao seu auxiliar. Se houve ou não o gesto não se sabe, mas a oposição não deixou escapar a versão que lhe convinha. Pelo menos nesse caso a bananeira deu cacho.

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