O arrocho vivo

A crença de mudanças significativas na economia perde espaço e o que se vê como regra é racionamento, regime de guerra, perpetuação da crise. O corte nas bolsas -11 mil em bloqueio no ano -, consequência direta dos ajustes orçamentários da Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Esse desmanche atinge frontalmente universidades estaduais, nas quais 80% das bolsas são por ela financiadas.

Outra coisa: programas sociais sofrerão cortes profundos no orçamento de 2020 e o mais devastador deles se deu no Minha Casa, Minha Vida, com queda de R$ 4,6 bi para R$ 2,7 bi e justamente olhado hoje como fator de reaquecimento da construção civil nos dados do IBGE recentemente divulgados e que geraram alguma esperança. Para que se tenha uma ideia do desastre, basta lembrar que de 2009 a 2018 a média de investimento era de R$ 11,3 bilhões ao ano. A paulada alcança também o Bolsa Família, que permanece com R$ 30 bilhões, sem correção, portanto, e com a média do valor por família de R$ 188,63.

Apesar do baixo nível de credibilidade do governo, isso não o impede de ousadias e o ministro Paulo Guedes, como se nada tivesse a ver com isso, está em plena ofensiva na recriação da CPMF, que ao ver de Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, não passa.

Guerra quente

Imaginava-se um clima de tranquilidade para o governo estadual diante do apoio que tem do legislativo, ainda mais depois das negociações com o fórum sindical e da postergação da alta salarial para janeiro de 2020 no caso dos servidores do Executivo. E quando menos se esperava, Ratinho Junior veio com a medida radical do corte da licença-prêmio que restabelece o clima de conflito com o funcionalismo. Ainda que a medida diga respeito aos quadros funcionais futuros, a tese é provocação bélica na perspectiva dos servidores e por isso manterão a postura cabível – a de enfrentamento.

A bronca dos barnabés se deve ao fato de o governo mandar a mensagem ao legislativo sem debate, como é da tradição. Aliás, a queixa contra as fusões em órgãos da agricultura também desprezou o exame entre as áreas interessadas, imposição portanto. E se a repercussão no caso do Iapar já rendeu tantas mobilizações dá para concluir que o mesmo se dará com a licença-prêmio, por mais razoável que seja a linha de argumentação oficial, centrada no desespero e na evidência de que a gestão pública mergulhou no vermelho.

Quebra à vista

Enquanto em termos nacionais caiu o número de pedidos de recuperação judicial entre janeiro e julho, de 850 para 794, 6,6% a menos, no Paraná houve um crescimento de 115,6%, de 32 para 69 pleitos, maior parte deles da área do agronegócio. Quebra de safra e falta de crédito afloram como fator causal.

Segundo especialistas da Serasa Experian, menos de 20% das empresas que pedem recuperação conseguem a reabilitação, e uma das causas é a de fazerem o pleito tardiamente.

De leve

Manifestações de caminhoneiros no posto Costa Brava em Quatro Barras é uma prévia da prometida greve para hoje. A concentração, ainda que reduzida a cincoenta caminhões, deu sinal ao que pode acontecer, a despeito de haver racha, discordância, entre motoristas. Em Pernambuco, a greve já foi iniciada, de leve como essa, ao menos até agora, do Paraná.

Vulnerável demais

Apesar de todos os formalismos da gestão pública, percebe-se no caso da responsável pela manutenção da frota pública que a coisa às vezes lembra Casa de Mãe Joana, como a de não ter havido consulta prévia ao Cadastro Unificado de Fornecedores do Estado do Paraná e a ausência de numeração sequencial do processo de dispensa da licitação. Hoje a confiança reside em ações policiais, como se dá agora, e especialmente da parte do Gaeco.

Para dizer o mínimo uma vergonha, ainda mais que o assunto já havia sido abordado lá atrás nas peripécias do primo distante de Beto Richa, Luis Abi Antoun, hoje exilado e que era um especialista em várias áreas.

Pesquisas

Com a provocação habitual, Jair Bolsonaro colocou em dúvida a precisão das pesquisas do Datafolha, comparando-a à credibilidade em Papai Noel. Se o presidente nega a eficácia dessas sondagens – especialmente quando detém números tão fortes - é prova afinal de que só crê nos seus apoiadores com os quais sustenta seu relacionamento diário. Como são magnânimos, operam exatamente como um Papai Noel permanente, dispensada a roupagem cromática.

Folclore

Maria do Cavaquinho costumava fechar a rua XV, ao deitar-se no asfalto, quando a via era de mão dupla. Apoiada nos estudantes - que nos anos 50 a 60 dominavam em Curitiba- aprontava mais do que isso: estimulada a fazer transeuntes importantes - mestres universitários- a andar de bicicleta com a mão agarrada no sexo dos homenageados. A última figura que constrangia os pedestres foi a Gilda, o travesti que beijava os escolhidos.

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