O apelo das ruas
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terça-feira, 21 de maio de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
O apelo das ruas
A história brasileira é pródiga na sedução das ruas, razão pela qual não espanta o fato de o governo Bolsonaro pretender apelar para esse recurso, quem sabe com o propósito de medir a sua com a mais recente do corte das verbas educacionais. Pode sair-se bem, mas governo que carece desse tipo de emergência é porque não está bem, como se deu com Jânio Quadros, com Fernando Collor e também com João Goulart, que com o comício das reformas na Central do Brasil botou 350 mil pessoas como público e que teve resposta de 700 mil e mais de um milhão da Marcha com Deus pela Família e a Liberdade, sinal civil para a intervenção militar, em todas as principais cidades.
Espontâneo e apropriado foi o de 2013, com o pretexto de um reajuste na tarifa de ônibus – um verdadeiro estouro da boiada -, que redundaria na derrubada da presidente Dilma Rousseff, e em que os manifestantes impediam que, com adereços ou bandeiras, partidos políticos tentassem surfar no meio da massa. Há pessoas da direita, como a deputada estadual Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment, que discordam dessa emulação pelo palmômetro do auditório que acusa o recurso de terrorista, quando quem coloca tudo em risco é o presidente, seus filhos e alguns assessores.
Enquanto isso o país afunda na crise, o dólar explode, a bolsa cai, enunciando-se um cenário de recessão e, pior do que isso, de depressão, menor que a de 1929 nos Esteites, porém bem próxima da vivida recentemente pela Grécia. Continuamos em marcha na areia movediça.
Heróis e vilões
Se Sergio Moro fez barganha, mesmo indireta, para ser ministro do STF, praticou vilania, em que pese sua imagem de herói por ter deflagrado o maior acontecimento deste país com os sucessos da Lava Jato. Já para os que acham que Lula é herói, Moro é o oposto disso. Esse é o quadro de maniqueísmo do país, rígido binário de bem e mal.
Há quem ache os heróis indispensáveis, mas a questão é colocada em "Galileu,Galilei" de forma crítica. Ocorre que o herói de hoje pode ser o canalha de amanhã. Ninguém tentou, em seu marketing, aparentar personagem de história em quadrinhos como Collor e o mais discreto dos presidentes que tivemos, Itamar Franco, seu vice, de quem pouco se esperava, é o homem do Plano Real que nos deu por algum tempo a ideia de salvação e de fato nos livramos da praga que nos parasitava, a da inflação, no feito mais demorado, pelo menos até agora, da governança brasileira. A esperança é que as reformas de agora tenham esse condão.
E agora, Londrina?
Saiu da Série C, mantém-se até aqui na B novamente com chances de subir, como as que desperdiçou anteriormente, e pergunta-se: "o público vai continuar ausente?" O tempo passa e a impressão que fica é que não há consciência de culpa, nem agora e muito menos depois de um possível feito com o Estádio do Café vazio.
Ociosidade nervosa
Está certo o presidente da Assembleia Legislativa, Ademar Traiano, em pautar de uma vez a versão local do "Escola sem Partido", que tramita há mais de dois anos nas comissões e que restringe discussões de gênero e sexualidade nos colégios. Ela tem seus fundamentos mais remotos em dispositivos constitucionais de Cartas anteriores que reafirmavam o princípio de que a educação será dada no lar e na escola e que foram alcançados pelos novos rumos da pedagogia e da didática. Decisão recente do STF, voto de Minerva da ministra Carmen Lúcia, entende que religião pode ter espaço em escola pública, gravame ao fundamento da laicização, do Estado leigo. Quanto ao tema em debate há decisões da Corte que veem como ilegais leis estaduais a respeito. Todos arregimentados ao debate em cima de algo que não passa de ociosidade nervosa.
Ganhando com o caos
Insiste-se em ver Curitiba como modelo urbano, quando mal resolve o principal dos seus problemas, o da mobilidade, o da circulação. Com uma taxa de 0,74 veículos por habitante (a frota, segundo o Detran, era de 1,418 milhão em março) está um ambiente engarrafado e as respostas adotadas só tiveram um efeito, o de dar centenas de milhões em multas em favor da prefeitura, mesmo quando adotava supostos remédios heroicos como o das vias calmas, 30 kms horários, que não reduziram conflitos. É nesse quadro incalculável o número de veículos que operam com os aplicativos e muitos deles não permanentes. A tarifa, por sinal, começou a salgar, o que é um drama maior para os condutores em permanente deseconomia. Essa atividade virou uma saída, claro que desesperada, para o desemprego, daí amarrar o governo para qualquer ato de regulação.
Folclore
Animadores culturais como Paulo Leminski (esclareça-se do padrão de Osvald Andrade) e Jamil Snege faziam de sua passagem na publicidade a medida do espetáculo: Kid Malu, caubói que vendia a imagem de um dos Malucelli, numa criação do turco, chegava a empolgar com um cavaleiro montado em pleno calçadão.


