Nunca se produziu um cenário tão perfeito para um caos institucional como agora
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terça-feira, 26 de março de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Nunca se produziu um cenário tão perfeito para um caos institucional como agora: ao lado do choque entre o STF e ministério público e juízes, visível em tantos fronts, temos a pendência entre Bolsonaro e Rodrigo Maia, que emperrou a mais importante das reformas, face à difícil, para não dizer impossível, retomada do diálogo. O curioso é que o tipo de anomia que se dá agora não é por falta, mas justamente por excesso de referenciais institucionais.
O presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, tirou o time de campo ao perceber que Jair Bolsonaro se recusava ao processo normal de negociações que o caso implicava e ao qual o presidente se referia como expressão da “velha política”, sem clarear o que é afinal a “nova”, tão apregoada e tisnada de leve pelas laranjices eleitorais e pelos sismógrafos do Coaf. Essa condenação ao imobilismo não tem, ao menos por enquanto, um sinal de conciliação e com ele da retomada do diálogo. Todos se sentem feridos, magoados, e na plenitude da razão.
De outro lado, temos questões candentes como as prisões do ex-presidente Temer e do seu ex-ministro Moreira Franco, que já provocaram manifestação do STF e que estão no rol do “racha” dos atritos internos quanto à validade da Lava Jato, seja a de Curitiba, a do Rio, hoje mais aquecida por Marcelo Bretas, e agora a de São Paulo, que depois de Paulo Preto entra no metrô e vai em cima dos parentes de Lula, seu filho Luis Claudio e o irmão Frei Chico.
Lateralmente, ainda a absorver a pressão do ministro Sergio Moro pelo pacote anticrime, ironizado como “cola” por Rodrigo Maia e motivo, portanto, de atrito. É muito fogo para a escassez momentânea de bombeiros.
O salamargo de sempre
Bastou enunciar-se uma crise, como a que encaramos agora, e volta-se a falar no regime de gabinete, o parlamentarismo. E isso se dá quando o Executivo aparenta muita força (vide Jânio Quadros, Collor), mas encontra resistência no parlamento, o que ora apenas mal se insinua. Nossa última experiência, apesar da abundância de quadros como Tancredo Neves, Brochado da Rocha para o papel de liderança, foi desastrosa e feita apenas para tirar poderes de Jango Goulart, uma espécie de “capitis diminutio maxima”, revista em 1963 com apoio explícito de Ney Braga no transcorrer do plebiscito. Praticamente tivemos parlamentarismo até a proclamação da República, no qual o primeiro governador do Paraná (1853), o baiano Zacarias de Góes e Vasconcelos, chegou a ser presidente do conselho que juntou em seu currículo ao governo de três províncias e vários ministérios.
Tivemos em passado distante uma figura ímpar que era Raul Pilla se batendo sempre com forte argumentação. Seu partido, vinculado a tradições gaúchas, era o Libertador, e a cada crise, hasteava a bandeira. O Rio Grande do Sul, contestador como sempre, chegou a ter o regime de gabinete no estado o que, obviamente, não preponderou, mas estava no texto da Carta.
Leva Jato
Antes só se chamava de Leva Jato a de Curitiba, porém a do Rio de Janeiro, desde segunda-feira (25), corre igual risco ante a decisão do desembargador Antonio Ivan Athié, do TRF da 2ª Região, de soltar Michel Temer e demais presos, entre os quais Moreira Franco, alvos de recente operação.
Percebe-se na decisão que a Lava Jato perdeu seu traço hegemônico, já que sustentada por juízes de primeiro grau encontra resistência na área revisora. No seu período áureo, a de Curitiba jamais teve suas condenações contestadas e em casos de revisão mais para aumento do que redução das respectivas penas.
Resposta
Há um surpreendente silêncio dos intelectuais da esquerda relativamente a Olavo de Carvalho, talvez com o propósito até de que ele seja a expressão direta do presidente Jair Bolsonaro e com o objetivo de consolidar tal identificação ideológica na qual prevém queda. Restrições como a de que seria estranho à academia por não ter formação específica soam frágeis como se postulassem reserva de mercado para filósofos, o que aliás já é problema de epistemologia.
Coube ao secretário general Carlos Alberto Santos Cruz responder aos ataques genéricos do filósofo contra os militares, a quem chamou de golpistas. O general condenou a linguagem chula, grosseira do ideólogo que a certa alta, depois de desqualificar o vice Hamilton Mourão, chamou os militares de “cagões”. Com Olavo batendo no governo, ainda que em seu setor militar, a fatura é de oposição, mesmo quando calada como a do PT.
Folclore
O agricultor do Vale da Ribeira se aproxima do Palácio São Francisco, sede do governo, e vê nos jardins um homem de cabelo branco a cuidar das rosas e dálias. O próprio jardineiro puxa conversa e quer saber o que ele pretende no Palácio. O homem simples debulha os problemas de sua região e se queixa de várias coisas, inclusive da ação de grileiros de terras.
-Você vai dizer tudo isso ao presidente?
-Vou.
-E se ele não o atender?
-Mando ele praquele lugar.
Meia hora depois o lavrador é chamado ao gabinete do “presidente” e vê que se trata do homem simpático do jardim. Repete tudo de novo e aí Maneco Facão pergunta:
-E se eu não o atender?
-Aí fica igual como nós combinamos lá embaixo.
Conta a lenda que Manoel Ribas atendeu o lavrador por ser cultor da sinceridade.


