Nada mais abala

Saiu a tal greve geral, que parece ter tido menos força do que as duas marchas anteriores, a do governo e a da oposição. Aliás, não fosse o apoio do transporte – ônibus, metrô, trens - teria menos força ainda. O fato é que o barulho das ruas, até por ser genérico, em sua posição contra a reforma previdenciária, mal chega ao Congresso, que é onde se decide o jogo e vê-se o relator Samuel Moreira, a fazer concessões, buscando sustentar os pilares do projeto tido como salvacionista, mais uma como a das diretas já, eleição de Tancredo, constituinte e agora essa que lembra as outras dos anos sessenta de Jango Goulart . É um carrossel de ilusões.

Até hoje das nossas experiências nada suplanta o havido com o Plano Real em termos de durabilidade como terapia do equilíbrio e da ação antiinflacionária. Na verdade, está nos nossos dias como referência e lembrando que isso se deu num governo de quem pouco se esperava, razão pela qual muitos apostam nas intervenções de Paulo Guedes, finalmente um liberal e da escola de Chicago, para reativar a economia ainda com sedimentos da recessão.

Caiu também o terceiro ministro de Bolsonaro, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, da reserva, que trombava com os filhos do presidente e o guru Olavo de Carvalho, substituído por um general da ativa, comandante militar do sudeste, Luis Eduardo Ramos Baptista Pereira, na Secretaria do Governo, e tudo foi absorvido com naturalidade como se não houvesse questão de fundo na mudança representativa da força do núcleo supostamente mais ideológico e dos ruídos mais fanáticos na pilotagem das redes sociais.

STF tenso

Tranquila a decisão de enquadrar a homofobia como crime de racismo, a despeito de seu caráter doutrinariamente polêmico, até que o Congresso aprove lei sobre o tema. Foram oito votos favoráveis e três contrários, de Lewandowski, Toffoli e Marco Aurélio. Fica assegurada a liberdade para que líderes religiosos possam argumentar em seus cultos que as denominadas condutas homoafetivas não estão de acordo com suas crenças. Não se admitirá é hostilidade e violência. Tensa deve ser a sessão da Segunda Turma, que dentro em breve se ocupará do habeas corpus em favor do ex-presidente Lula, e a dúvida é sobre o voto do ministro Celso de Mello, que pode decidir a pendência.

Milícias

Quando falamos em milícias tratamos o tema como se não houvesse entre nós e apenas em São Paulo, Rio e Minas. Ora, as milícias já operam aqui abertamente vendendo segurança e operando nas organizações de moradores ou no primitivismo das cobranças de pedágio a cargas de gás, cigarros e outras mercadorias. Obviamente não se encontram em nível de organização como as dos grandes centros, mas caminham para ganhar corpo e ter maior influência em ações políticas e sociais. Muitas já elegeram vereadores quando bem estruturadas.

Licenciamento

O projeto que cria a lei geral de licenciamento ambiental mantém em aguda controvérsia o setor ambiental e os ruralistas. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, insiste que a atividade agropecuária é de baixo risco e não precisaria ser submetida a licenciamento. O fato é que praticamente todas as fontes de captação de água estão tomadas pelos pesticidas e elevadíssimo o índice de mortalidade devido aos agrotóxicos. Quem gosta de moleza é bebum na ladeira. A experiência paranaense no ramo é grande e seu momento máximo, o do controle dos agrotóxicos, se deu no governo José Richa e nas ações do secretário Claus Germer, da Agricultura, que cercava comboios nas estradas e intentou a campanha do receituário para aplicação dos defensivos. Por sinal que à época no comando da associação dos engenheiros agrônomos, Ágide Meneghetti, defendeu o direito de profissionais da área atuarem na venda dos produtos, o que num ambiente ideologizado era mais tema pra debate. .

Limites

O STF decidiu que o governo federal só pode extinguir conselhos criados por decreto. Como a maior parte deles se funda em lei não podem ser mexidos. Dos onze integrantes do colegiado cinco queriam revogar integralmente o decreto, e pela maioria o pleito do PT, que entrou com a ação, foi atendido apenas parcialmente.

Cidade industrial

Quando Curitiba criou a Cidade Industrial tinha massa crítica para tanto em núcleo de planejamento e de estudos como os do Badep. Projetava-se o molde de cidade e não de distrito industrial como há tantos no país como o modelar de Aratu, na Bahia. Mas erros foram cometidos como o de deixar a área gigantesca exposta a invasões, causa até hoje do fato de ela constituir-se num dos maiores polos de violência urbana, tantas as ocupações que aliás respondem também pela forma caótica tal qual se deram. Muitas das empresas que para lá se dirigiram sofreram para subsistir ante a rotatividade desses espaços.

Folclore

Anibal Curi tinha um projeto-ameaça na gaveta criando um Tribunal de Contas só para municípios e usava essa arma cada vez que um dos seus prefeitos era ameaçado por ações de conselheiros do órgão estadual. Era uma vacina forte contra uma ingerência que o Buda visse como exagerada. E Aníbal, como dizia Canet Júnior, era a "lei".

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