Na areia movediça
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de junho de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Na areia movediça
Há quem considere, desde já, 2019 um ano perdido, com escassa perspectiva de uma retomada da economia deprimida e com sedimentos da recessão mal terminada em 2016. O recuo de 0,2% do PIB, Produto Interno Bruto, em relação aos últimos três meses quebra expectativas de melhora, ainda que o ministro Paulo Guedes, da Economia, indique que em julho o quadro melhora. Fica também claramente demonstrado que a reforma previdenciária, por si só, será insuficiente para a alavancagem, tanto que, fugindo ao rigor teórico, cogita de liberar R$ 41 bilhões do PIS-Pasep e em contas ativas e inativas do FGTS, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, para animar o consumo, tal qual Michel Temer adotou. O fato de o ministro ligar esse tipo de liberação como etapa do pós-reforma surpreende porque em sua postura liberal discorda de terapias centradas no fomento ao consumo.
Difícil ante a especificidade da crise é ajustar teoria e práxis e alguns analistas entendem que o Banco Central pode cortar juros, um dos poucos instrumentos de curto prazo para ajudar a economia voltar a crescer. O fato é que a economia brasileira mostra retração desde 2016, após dois exercícios de recuperação da atividade econômica.
Patrulhamento
O novo confronto de passeatas entre governo e oposição já rendeu a hipótese do clima de denúncias contra professores, servidores, funcionários, alunos e pais estimulado pela pasta da Educação, na prática a consagração do Escola sem Partido, velha aspiração da direita e que não é acolhida numa perspectiva minimamente constitucional. Da mesma forma que aposta na eficácia da atoarda das redes sociais, usam-se mecanismos de repressão e intimidação para lograr objetivos que detenham atos contestatórios aos cortes orçamentários.
Conflito necessário
A postura de organizações liberais e sociais no caso do Plano Diretor de Londrina revela desejável nível de engajamento, embora o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, o Ippul, se mostre em aberta divergência com as entidades que pedem revisão do texto. Em Curitiba, que viveu essa experiência sob Ivo Arzua, adotou-se o critério de levar a debate todas as propostas e o curioso é que apareceu inclusive um plano alternativo ao vencedor do processo de licitação, o da Serete, que fazia previsões mais corretas sobre as tendências de crescimento da capital e acabou sendo levado como ponto crítico.
O fato de estar empacado na Câmara Municipal significa que está no aguardo de pareceres para discuti-los e tentar o consenso. Nunca o desejável, sempre o possível.
Emendas
A Câmara Federal está mexendo mais na reforma bolsonarista do que na de Michel Temer: emendas já se aproximam de 256, enquanto em 2017 deputados apresentaram 164. Claro que a distância é compreensível ante o fato de a proposta atual ter tom salvacionista, enquanto a daquela não gerava tantas expectativas. Para sair como Paulo Guedes a deseja é indispensável mais negociação.
Insistência
A defesa de Lula insiste na tese de que o juiz Sergio Moro perseguiu o ex-presidente de forma obsessiva, uma espécie de Inspetor Javert em permanente caça a Jean Valjean ("Os Miseráveis", de Victor Hugo) e voltou a um novo pedido de suspeição do atual ministro de Justiça e Segurança Pública, isso no âmbito da ação penal do tríplex. O ministro Edson Fachin, relator dos processos, negou o pleito que já havia sido rejeitado no TRF-4.
De novo no muro
Embora supostamente disposto a novos regramentos éticos, o PSDB tem extrema dificuldade em adotar medidas restritivas em relação a dirigentes como Aécio Neves e Beto Richa, ambos ex-governadores de Minas Gerais e Paraná, depois de sua convenção e como sempre permanece no equilíbrio do muro em torno das regras de conduta e punições a ex-dirigentes envolvidos nas tramas da Lava Jato. O pior está por vir com a perspectiva de atingir vários ex-governadores de São Paulo com os depoimentos do operador Paulo Preto. E aqui, no plano interno, vão pipocar casos do governo Beto Richa, como esse caso agora da empresa que explorava manutenção e reparos da frota pública. Como a polícia está em cima das investigações, isso se dará num governo politicamente aliado, o de Ratinho Junior.
Folclore
O que fizeram nacionalmente com o mineiro Benedito Valadares, tratado como ignorante no anedotário, procuraram fazê-lo internamente com Manoel Ribas, a despeito da abertura do estadista ponta-grossense para a modernidade, visível em seu governo. Como com a revolução de 1930 veio com gaúchos, que aqui se aclimataram como o major Fernando Flores, tentavam desfigurar sua origem, já que Getúlio Vargas o convocou pelo comando de cooperativa ferroviária naquele estado.


