Na areia movediça

Há quem considere, desde já, 2019 um ano perdido, com escassa perspectiva de uma retomada da economia deprimida e com sedimentos da recessão mal terminada em 2016. O recuo de 0,2% do PIB, Produto Interno Bruto, em relação aos últimos três meses quebra expectativas de melhora, ainda que o ministro Paulo Guedes, da Economia, indique que em julho o quadro melhora. Fica também claramente demonstrado que a reforma previdenciária, por si só, será insuficiente para a alavancagem, tanto que, fugindo ao rigor teórico, cogita de liberar R$ 41 bilhões do PIS-Pasep e em contas ativas e inativas do FGTS, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, para animar o consumo, tal qual Michel Temer adotou. O fato de o ministro ligar esse tipo de liberação como etapa do pós-reforma surpreende porque em sua postura liberal discorda de terapias centradas no fomento ao consumo.

Difícil ante a especificidade da crise é ajustar teoria e práxis e alguns analistas entendem que o Banco Central pode cortar juros, um dos poucos instrumentos de curto prazo para ajudar a economia voltar a crescer. O fato é que a economia brasileira mostra retração desde 2016, após dois exercícios de recuperação da atividade econômica.

Patrulhamento

O novo confronto de passeatas entre governo e oposição já rendeu a hipótese do clima de denúncias contra professores, servidores, funcionários, alunos e pais estimulado pela pasta da Educação, na prática a consagração do Escola sem Partido, velha aspiração da direita e que não é acolhida numa perspectiva minimamente constitucional. Da mesma forma que aposta na eficácia da atoarda das redes sociais, usam-se mecanismos de repressão e intimidação para lograr objetivos que detenham atos contestatórios aos cortes orçamentários.

Conflito necessário

A postura de organizações liberais e sociais no caso do Plano Diretor de Londrina revela desejável nível de engajamento, embora o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, o Ippul, se mostre em aberta divergência com as entidades que pedem revisão do texto. Em Curitiba, que viveu essa experiência sob Ivo Arzua, adotou-se o critério de levar a debate todas as propostas e o curioso é que apareceu inclusive um plano alternativo ao vencedor do processo de licitação, o da Serete, que fazia previsões mais corretas sobre as tendências de crescimento da capital e acabou sendo levado como ponto crítico.

O fato de estar empacado na Câmara Municipal significa que está no aguardo de pareceres para discuti-los e tentar o consenso. Nunca o desejável, sempre o possível.

Emendas

A Câmara Federal está mexendo mais na reforma bolsonarista do que na de Michel Temer: emendas já se aproximam de 256, enquanto em 2017 deputados apresentaram 164. Claro que a distância é compreensível ante o fato de a proposta atual ter tom salvacionista, enquanto a daquela não gerava tantas expectativas. Para sair como Paulo Guedes a deseja é indispensável mais negociação.

Insistência

A defesa de Lula insiste na tese de que o juiz Sergio Moro perseguiu o ex-presidente de forma obsessiva, uma espécie de Inspetor Javert em permanente caça a Jean Valjean ("Os Miseráveis", de Victor Hugo) e voltou a um novo pedido de suspeição do atual ministro de Justiça e Segurança Pública, isso no âmbito da ação penal do tríplex. O ministro Edson Fachin, relator dos processos, negou o pleito que já havia sido rejeitado no TRF-4.

De novo no muro

Embora supostamente disposto a novos regramentos éticos, o PSDB tem extrema dificuldade em adotar medidas restritivas em relação a dirigentes como Aécio Neves e Beto Richa, ambos ex-governadores de Minas Gerais e Paraná, depois de sua convenção e como sempre permanece no equilíbrio do muro em torno das regras de conduta e punições a ex-dirigentes envolvidos nas tramas da Lava Jato. O pior está por vir com a perspectiva de atingir vários ex-governadores de São Paulo com os depoimentos do operador Paulo Preto. E aqui, no plano interno, vão pipocar casos do governo Beto Richa, como esse caso agora da empresa que explorava manutenção e reparos da frota pública. Como a polícia está em cima das investigações, isso se dará num governo politicamente aliado, o de Ratinho Junior.

Folclore

O que fizeram nacionalmente com o mineiro Benedito Valadares, tratado como ignorante no anedotário, procuraram fazê-lo internamente com Manoel Ribas, a despeito da abertura do estadista ponta-grossense para a modernidade, visível em seu governo. Como com a revolução de 1930 veio com gaúchos, que aqui se aclimataram como o major Fernando Flores, tentavam desfigurar sua origem, já que Getúlio Vargas o convocou pelo comando de cooperativa ferroviária naquele estado.

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