Praxe resiste

Acreditar que a luta contra a impunidade não teria revanche e das mais bem articuladas era bem mais do que ingênua. Em que pese os ganhos até aqui com investigações e condenações a reação está aí, claro que mimeticamente exposta de forma sorrateira e delinquente, buscando, o quanto possível, primeiro colocar sob suspeita e depois buscar anular seus efeitos. É o momento de euforia dos que pareciam banidos e tentam com a aura da inocência o esforço da máxima retaliação.

Seus defensores se atrelam a absurdos como o de ver convergências em ações da polícia federal, do Ministério Público e da justiça, normalíssimas em seus procedimentos, como grave quebra de protocolo como se essas quadrilhas, que jamais eram vistas como tal, devessem ser enfrentadas apenas com discursos de admoestação.

Na visão deles meter a mão no jarro público, de forma sutil ou escancarada, era uma espécie de direito adquirido dessa fauna porque caracterizando uma praxe por sua frequência era visto como normalíssimo. E tudo isso traduzido em discurso por mais igualdade ao retumbante e cívico (mais cínico do que cívico) de apego à soberania traduzida na Petrobras, que assaltavam diariamente para sustentar carreiras políticas em sociedade com empreiteiras. Acreditar que um tipo de combate como esse se atrelaria ao bom mocismo, ao fair play, ao "savoir faire" é não entender aquilo que esta FOLHA publicou na edição de ontem sobre os treze acordos de leniência na Lava Jato desde 2016 e que implicam em mais de R$ 12 bilhões.

Para essa gente que ora se acredita no ataque aquilo que é praxe, que é comum e por isso aceito, tem a aura do direito adquirido que foi lesado. Eles são as vítimas, os inocentes, os culpados são os que tentaram por fim à corrupção e à impunidade.

Agora sai

O Paraná tem história e estórias de pleitos como o da BR-35, hoje 277, na ligação com Foz do Iguaçu, a Br-2, hoje BR-116, entre Curitiba e São Paulo, essa ainda não terminada, embora submetida ao fulgor rodoviário de Juscelino. No plano local uma das aspirações do norte paranaense é o projeto de duplicação da PR-445 entre o Distrito de Irerê e Mauá da Serra. Pois foi anunciado, semana passada, que o processo de licitação para a elaboração do projeto sairá ainda este ano. Tal projeto deverá ser financiado pelo BID, presença constante em feitos governamentais, prova inquestionável de nossa capacitação. Esse investimento é de porte, alcançando R$ 300 milhões no trecho estratégico de 52 quilômetros. Só o estudo demora um ano, mas há a perspectiva do término do primeiro trecho em julho de 2020.

Chio corporativo

Habituados durante a gestão Beto Richa a receber todos esses últimos três anos o reajuste automático da inflação, servidores do Judiciário, Legislativo, Tribunal de Contas, Procuradoria da Justiça, Defensoria Pública resistem à mensagem de Ratinho Junior que restabeleceu a isonomia entre o funcionalismo, submetendo-os todos ao arrocho diante da ameaça que o Paraná está correndo risco de não ter a garantia da União para seus empréstimos diante da LRF, Lei de Responsabilidade Fiscal, burlada nos dispêndios com pessoal. O Paraná caiu em sua nota pela Secretaria do Tesouro Nacional a B com viés de maior queda ainda e nivelando-se ao Rio, Minas e Rio Grande do Sul. Se não segurar, a situação se agrava e esse sacrifício já imposto aos servidores do Executivo, há três anos, é inevitável.

Lembre-se que Cida Borghetti tentou mediação no plano salarial, mas não contou com apoio legislativo no veto do percentual de 2,76% aos demais poderes. Tinha visão mais realista da conjuntura fiscal, como se provaria.

Sequelas

Quando se dá tanto relevo ao Intercept Brasil urge saber, por exemplo, que a conclusão do Rodoanel Norte de São Paulo, que havia sido orçado em R$ 4,3 bi, já consumiu R$ 6,85 bi, e cujo custo final, com desapropriações, chegará a mais de R$ 10 bi. A obra sob investigação de corrupção e superfaturamento é uma prova eloquente de que é preciso aprofundar a Lava Jato e não submetê-la a camisas de força como está acontecendo. A força tarefa, a essa altura, está consciente das restrições levantadas e certamente não vai dar mais força à Vaza Jato.

Folclore

Quando havia latim no segundo grau os lentes da área sofriam com as dificuldades de aprendizado dos alunos. João Mazzarotto era um deles, lá no Ginásio Paranaense, e para facilitar a retenção dos pronomes dizia tê-los aprendido recitados em forma de verso na sua juventude e lá vinha o "qui, quae, quod" como se rimados. De todos os mestres o mais duro era o professor Zavadski, que anunciava provas-relâmpago com respostas em cinco minutos por que razão os verbos de dizer, consta, pedem acusativo com infinitivo e dava o exemplo com seu tom apolacado no falar "Constat Roma conditam esse a Romulo". Consta que Roma foi construída por Rômulo. Latim hoje nem na missa, mas vivo no Supremo Tribunal Federal, onde é mais comum haver um habeas corpus do que um habeas data, esse sacado na Carta de 1988.

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