Jô Soares não fez papel de presidente como seu colega ucraniano Volodimir Zelenski, mas o de rei, que não temos há tempo e confirmado num referendo, posto que com o apoio do às vezes barítono Mario Henrique Simonsen. Recentemente, um artista da tv, o Hulk, quase se lançou como alternativa à aridez dos quadros.

A ironia no caso da Ucrânia é a circunstância de que Zelenski, que vivia na tevê um desconhecido que se elege presidente do país, levou a melhor no pleito com as forças tradicionais, tal qual se deu no Brasil com o primeiro homem comum que chega ao topo, figurante por vários mandatos do chamado baixo clero. Como porém o alto clero por aqui é gente como Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, todos presidenciáveis, na comparação inevitável acabou coroado. É um beneficiário direto da degradação geral dos políticos, cuja maioria foi apanhada botando a mão no jarro. E para restaurar e substituir a fauna não será nada fácil, ainda mais se a Lava Jato ganhar a consistência inicial.

Há uma certa medida de teatralidade em nosso caso, confirmada no tumulto cotidiano e na postura de um presidente que em momento algum deixa de comunicar-se, ao seu estilo como na campanha eleitoral, com o seu público. É como o homem diante do espelho, daí porque seu monólogo neutraliza informes negativos de qualquer natureza, sejam inclusive de alertas do Ibope ou Datafolha ou singelamente de análises do IBGE, que olha como “fake news”.

Saúde judicializada

No bojo da reforma previdenciária, meio enrustido, veio um alertamento: o de que despesas judiciais com remédios e tratamentos só serão pagas se indicada a fonte. Há nessa iniciativa um pouquinho da malandragem nacional, ações de Pedro Malazartes, do jeitinho à brasileira, que encontrará resistência por causa da sua discutível constitucionalidade. Mas esta FOLHA demonstrou a dimensão do problema regionalmente: entre os anos de 2013 e 2018 houve uma despesa de R$ 866 milhões para aquisição de remédios na justiça, o que implicou em dispêndios de 145% a mais nesse item. Só no ano passado, para melhor referência, mais de 5.400 pacientes foram beneficiados em terapia de câncer ou doenças raras. A Secretaria de Saúde se sente impotente para atender tais demandas pela desproporção na partilha de responsabilidades ante os demais entes federativos, os municípios e a União.

A revisão tão referida ultimamente do chamado pacto federativo incluiria certamente essa contundente anomalia.

Foragidos, um problema

O caso específico de Luis Abi, o primo distante do ex-governador Beto Richa, barra o andamento de várias ações tanto do Ministério Público Federal quanto do estadual em que aparece como operador do propinoduto. Está no exterior amparado pelo estatuto da cidadania dupla, e com isso os procedimentos contra ele ficam prejudicados.

De todas as medidas da Lava Jato, uma das mais importantes está na operação Câmbio, Desligo, que se volta contra os grandes doleiros do país, artistas na lavagem internacional de dinheiro e que tem na figura de Dario Messer um dos destaques. Visava-se desvendar frentes de lavagem fora do foco das investigações da Lava Jato em Curitiba. Quase todos os presos de um ano atrás estão fora da cadeia, muitas solturas (dez delas) pelo STF e cinco pelo STJ.

Baixa expressão

Com decisões de campeonatos regionais renhidas e com estádios cheios, isso não se deu no Paraná e a qualquer confronto desfrutávamos uma postura marginal, periférica, visível até na baixa recepção da Rede Globo na final da Baixada, que pelo menos teve recorde de público, com quase 30 mil pessoas, decorrente da promoção que o Athletico empreendeu. Um aspecto positivo está na presença de uma equipe do interior, o Toledo, como já tivemos, em ocasiões anteriores, o Londrina e Operário de Ponta Grossa.

Pesa no desinteresse a política do Athletico Paranaense de em sua dividida com a FPF botar em campo o time sub-23, aureolado bicampeão, o que baixa o astral da disputa, já que a equipe principal está às voltas com um calendário internacional e nacional. Percebe-se essa situação de marginalidade pelo destaque conferido na televisão a outras disputas de estados com menor expressão, sem falar nas dominantes de Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul.

É preciso que se veja na competição regional uma das raras oportunidades para realçar um esforço de unidade cultural na diversidade que nos caracteriza e que encontra na emulação esportiva um esforço expressivo de identificação. Um limite nos times principais da capital está no fato de não sairem da Região Metropolitana.

Folclore

Uma das figuras de fino humor de Curitiba foi o saudoso iratiense Orlando Carlini. Em manhã animadissima na Boca Maldita estava de olho no cortejo do Inri Cristo que andava no meio do calçadão. De repente o Carlini sumiu da roda e se ligou no carro triunfal que conduzia o Inri Cristo e suas diletas seguidoras. Acompanhou tudo até a Praça Osório e retornou à roda. Aí lhe perguntaram, a troco de quê, toda aquela reverência. “De repente, minha gente, esse cara emplaca e eu apareço na nova edição da Bíblia”- respondeu, rindo.

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