Hora de definição

Quem está mais preparado para a greve anunciada para hoje: os sindicalistas , que a preparam há tanto tempo, ou o governo com seu negativismo sistemático, assentado em suposta acomodação dos servidores públicos? O fato concreto é que não há grana nem para os 4,94% imaginados. Um descompasso de R$ 1 bilhão impede a operação que só seria possível, segundo Ratinho Junior, com aumento de impostos que a comunidade não estaria disposta a engolir. Sindicalistas confiam na reação do funcionalismo, que não é lá essas coisas e que sabe que em outros estados nem o salário é pago integralmente, uma espécie de conformismo mina o espírito da categoria.

O que pode romper essa apatia é a prometida atuação de policiais inativos associados às esposas dos ativos e que implicaria em cercos e isolamento de quartéis. Aí seria motivo para preocupação ante um motim verdadeiro. Fazer tudo isso para receber menos de 5% depois de três anos de congelamento não compensaria, a não ser que estivéssemos diante de um ato de rebeldia pela rebeldia.

O pior, porém, é o tratamento desigual com servidores de outros poderes que continuarão a receber reajustes automáticos, mas nem os deputados e muito menos o governo se dispõem a mexer no vespeiro que a Cida Borghetti tentou inutilmente ajustar. Nenhum dos dois lados está preparado para a hipótese do embate, essa pelo menos é a impressão dominante e que só se modifica se mesmo parcial a greve emplacar e impuser no mínimo a retomada do diálogo, o que vale um pouco mais do que zero.

Mal para o governo

Mesmo defendendo a mesma linha do governo anterior, o de Beto Richa, na rigidez fiscal, Ratinho Junior, até aqui, não avançou um centímetro naquilo que tanto pregou: o de fazer mais com muito menos. Não tem boa presença nacional, apesar da identificação com o jeito de ser de Bolsonaro, está a repetir seu antecessor na questão de supostos bilhões de investimentos e no jogo de braço com os demais poderes na pretensão de negociar a redução de suas cotas orçamentárias, que pelo jeito já perdeu como de resto suas medidas de economia valem mais como atitude comportamental do que como efeitos práticos. A redução do número de secretarias dá apenas R$ 10 milhões anuais e o quadro fiscal permanece em claro desequilíbrio, tudo ainda em areia movediça. Isso pode não refletir ainda em pesquisas, mas terá efeitos inevitáveis nas eleições municipais.

Colarinho branco em ofensiva

A corrupção não foi debelada, mas sofreu o maior desmascaramento da história com o fluxo da Lava Jato. Com o tempo os desgastes da operação permitiram que as forças afetadas se reorganizassem e viessem com tudo com os relatos da The Intercept Brasil, uma guerrilha de hackers em torno do intercâmbio de informes entre Ministério Público e o juiz, como se isso, posto que ritualisticamente condenável, não fizesse parte de uma praxe, ainda mais diante de experiência jamais vivida pelo país e que devassou as entranhas da corrupção em metástase que está no corpo das instituições.

O vale tudo está aí para testar pessoas e instituições: as revelações tornam improvável e inócua qualquer avaliação posterior de que se originaram de ação criminosa. Também aí a exuberância do material colhido deixa distantes situações vividas anteriormente como a tal da Carta Brandi que visava um golpe mortal no neogetulismo dos anos cincoenta. Por mais que advogados criminalistas que se empenharam, desde o início, contra a operação, desenvolvam doutrinas defensivas, e isso como corporação organizada, jamais elidirão o que foi revelado e que lá na frente, já no mensalão, havia registrado a queda do maior deles, o God, Márcio Thomás Bastos, identificado com a causa de Lula, de quem foi ministro.

Sergio Moro afirma – e em isso em bom latim - que até aqui a montanha pariu um rato, porém hoje já não pode, como antes, posar de inflexível, ante a aceleração do seu desgaste que anima corruptos e decepciona muitos dos que nele viam uma figura excepcional. Ele foi exuberante enquanto no ataque, espera-se que se saia bem na defesa de uma carga que não é tão ampla quanto a que devassou, todavia precisa ser bem respondida.

Raios

Quando tinha dezoito anos estava no campo do Paraná, mais ou menos onde fica a prefeitura, no Centro Cívico, e me armei com uma sucata da Fundição Mueller e a lancei ao espaço como um disco voador, e na atmosfera magnética o que houve foi a derrubada do objeto por um mini raio a menos de três metros da altura de onde me encontrava. No estúdio da Rádio CBN, há uns quinze anos passados, um micro raio entrou pela janela, passou pelas costas do José Wille e da minha, em assento ao seu lado, contornou o homem da técnica e saiu no extremo oposto, à esquerda, por onde havia entrado. Meses depois um canarinho refez o itinerário do raio como se fosse a sua versão lírica. Próximo, às vezes, de um risco e também da poesia.

Folclore

Bento Ilseu Chimelli fazia questão de pagar um a um os envelopes de seus funcionários e por vezes para sustentar que era muito rico apontava para suas iniciais para sugerir que era o dono da BIC.

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