Hora da blindagem

Assessores e aspones do PSDB paulista permaneceram 63 horas numa fila e evitaram dessa forma uma CPI sobre Paulo Preto. A classe política cuida de blindar-se e evitar os efeitos devastadores que a minoritária oposição poderia extrair. Aqui no Paraná ela sempre foi eficiente nesse papel na sustentação do governo Beto Richa, nesta terça (19) preso pela terceira vez, e montando seus tratoraços de votação. Até hoje, fora murmúrios de oposição, pouco se abordou da "Quadro Negro", causa da prisão mais recente do ex-governador e do seu principesco auxiliar, Ezequias, aquele que transformou a sogra em funcionária fantasma da Assembleia e ficava com a bufunfa.

Quem tem que blindar-se como categoria é o Ministério Público visto claramente como algoz pela Corte Superior. De certa forma o fez ao colocar em destaque a denúncia de Antonio Palocci, ex-ministro, de que Lula acertou propina com o presidente francês Sarkozy na compra de helicópteros e construção de submarinos nucleares pelo Brasil. Isso é mais efetivo do que sustentar o contraditório em causa praticamente perdida. O que se pode esperar tanto do Ministério Público quanto da Polícia Federal é o máximo cerco da fauna política no intento de desvelar seus crimes, sem os quais, muitos deles não conseguem sobreviver.

Nada disso afasta a necessidade da autocrítica em relação não apenas ao caso da Fundação mas em todos os desvios de trajeto ao longo desses cinco anos para que retome, revigorada, ao seu papel que mesmo com os erros configura o maior feito na história do Brasil na luta contra a impunidade e a corrupção.

E agora?

Mais uma condenação judicial contra José Maria Ferreira, presidente da Fundepar, agora por haver praticado um delito muito comum: o de viabilizar publicações de promoção pessoal quando prefeito de Ibiporã. A sentença determina ainda a perda do exercício de cargo ou função pública, eletivo ou nomeação por um prazo de cinco anos. Trata-se da segunda condenação, a primeira, há um mês, por improbidade administrativa pela Vara da Fazenda Pública de Ibiporã. Já a mais recente, do início da semana, foi do juiz substituto de Londrina, João Henrique Coelho Ortolano.

Como o governo Ratinho Júnior é uma continuidade do de Beto Richa, muitas das demandas em andamento acabarão atingindo figuras da gestão atual e a sua não remoção, embora decorra do respeito ao direito de defesa, mexe indiretamente com a imagem do grupo e do compromisso com a austeridade. Tanto aqui como lá no governo federal com os laranjas.

Gaeco em ação

A prisão de Beto Richa decorre de providência do Gaeco, mas além dessa, que trata da "Quadro Negro" nos desvios das construções escolares, há outras em andamento como a "Publicano" que investiga a hierarquia da Receita Estadual (e que tem sofrido revezes no Tribunal de Justiça) e a das "estradas rurais", que atinge amplos segmentos da agricultura e infraestrutura e que fazem parte de um pacote de denúncias do empresário Toni Garcia.

Essa atuação do Ministério Público quebra uma rotina de convívio intrapoderes do Paraná, classicamente acomodado, e tal demorou para ocorrer ainda que desde a Constituição de 1988 desfrute do raio atual de autonomia. Durante muito tempo a relação do MP (inclusive muito vinculado à pasta da Justiça) não dava esses sinais hoje tão frequentes e extremamente salutares na prática do Estado de Direito Democrático.

Reação

A Câmara Municipal de Londrina está com um atrito diante do Ministério Público que quer porque quer uma nova sessão sobre os vereadores afastados Rony Alves e Mário Takahashi e discute inclusive o quorum da reunião que os absolveu. Apoiada em orientação da sua procuradoria, questiona o MP, ponto por ponto, em torno de sua recomendação. A promotora Sandra Koch pretende que a cassação dos vereadores (afastados por mais 180 dias) seja decidida por maioria simples, 10 votos, não acatada na interpretação dos camaristas

Bolsa profética

Embora os indicadores baixos (o IBC Br, do Banco Central, registrou prévia do PIB com queda de 0,41% em janeiro), a Bolsa chegou a fechar em 100 mil pontos com alta de 0,85% ante o pregão anterior. Age inteiramente descolada da economia em função da expectativa gerada pela reforma previdenciária. Dá para perceber aí o valor das subjetividades no tal mercado, um deus imponderável.

Folclore

Pela primeira vez as circunstâncias permitem a discussão se cabe ou não festejar a redentora de 31 de Março de 1964. Há muito deixaram de ser festejadas e talvez não tenham durado sequer o tempo das celebrações da intentona comunista de 1935 que ganharam relevo no andamento da Guerra Fria com manifestações nas unidades militares. A cautela recomenda que se houver festejos que sejam discretos e intra muros. 1964 rendeu anedotário como a estória de um notório fofoqueiro de Florianópolis, submetido a um falso fuzilamento e em seguida solto com seus captores acreditando no efeito da lição. Diz-se que o cara mal deixou o presídio e afirmou ao primeiro que encontrou na rua que o exército estava com terrível crise de material bélico.

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