Herança constrangedora

É admirável o esforço do governo Ratinho Junior em blindar-se contra anomalias da gestão Beto Richa, e sem sinais de quebra de respeito ao aliado, hoje alvo de tantos episódios da Lava Jato como de ações autônomas do Gaeco na "Quadro Negro", na Patrulha Rural e na Publicano.

Como o governo está assentado no mesmo tipo de filiação política, se vê obrigado a agir com a máxima rapidez a cada ação desencadeada pela Polícia Federal, como se viu no caso recente de investigações na Sanepar sobre gestões anteriores.

Quando a governadora Cida Borghetti criou área específica de combate à corrupção (acabou chegando na intrincada atuação do setor posto a serviço da frota pública, alvo hoje de uma CPI) buscou adiantar-se em autonomia e pareceu menos solidária do que a gestão atual, que vive momentos de constrangimento em emitir juízo de valor, quase um discreto ato de apoio a Beto Richa, condenado a um rígido isolamento por ordem judicial.

Analogia incabível

Ainda parecendo bem nas pesquisas de opinião, a Lava Jato foi bombardeada com as revelações da Intercept Brasil com o uso de lupa desproporcional ampliando dimensões e o significado das conversas entre juiz e procuradores. A insistência com que manipulou seus significados foi de tal ordem que dava a impressão de que o suposto delito, o dessa quebra de rituais formais, era mais nefando que o apurado nos propinodutos da Petrobras, ratificados com matéria probatória que apoiavam delações e justificavam tantas prisões.

Na verdade, a maior interessada na deterioração do fluxo judicial é a classe política, que se viu atingida por tantos acontecimentos. Como a operação se mantém viva com decisões do TRF-4 confirmando a sentença condenatória do sítio de Atibaia, tenta-se recuperar o equilíbrio rompido com a Vaza Jato.

O fato é que há um novo clima, como o revelado em prisão e processamento de desembargadoras da Bahia, envolvidos até em grilagem de terras e que no momento atinge integrantes da corte em Pernambuco na recepção de vantagens salariais por férias acumuladas. Temos com isso uma nova rotina até então mimetizada pela complacência em que a praxe delituosa é vista como direito adquirido.

Um símbolo

A transformação de obras didáticas não distribuídas em papel higiênico é metáfora do desperdício nacional. A explicação de que ela decorria da evasão escolar, em níveis dramáticos, não lhe retira o traço forte de metáfora da irresponsabilidade.

Democracia doente

Levantamento em 42 países embora confirme a crença no regime democrático (67%) prova que quase 50% acha que ele vai mal, apurando-se que os mais jovens são propensos a acatar o autoritarismo. O Brasil é prova disso com inflexões autoritárias, partidas do centro do poder, como nunca as tivemos de 1988 para cá.

Folclore

O professor de Desenho Pedro Macedo anda pela sala vendo o que os alunos do Ginásio Paranaense desenhavam nos seus cadernos. Diante de um que havia rabiscado um enorme pênis, reclama: "O modelo é um objeto geométrico e você me desenha um zepelim!"

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