Filtro indispensável

Que a política está judicializada e o Judiciário politizado estamos cansados de saber, mas algo precisa ser feito para que o ceticismo não predomine na área diante da própria visão que o público guarda dos envolvidos na liça. Há visivelmente em imposição um freio ao ciclo punitivo, como ficou claro na decisão do STJ pelo habeas corpus do ex-presidente Michel Temer e do seu amigo Lima Filho com ênfase à caça às bruxas. Só que a figura apreciada até outro dia era presidente da República e com tantas investigações como as que coroaram Lula e ambos os eventos assinalam uma tendência, que está sendo contida, para combater tanto a corrupção quanto a impunidade.

A impressão que se tem é que um pouco de racionalidade – por parte das áreas atingidas, Polícia Federal, Procuradoria da República e justiça, aí incluída a de segundo grau dos tribunais regionais, alvo das catilinárias dos ministros - tirará o tom político dessas ações que aparentam. O que não é nada bom, jogo pra torcida. Como a carga não para e agora tivemos a delação de Henrique Constantino, dono da Gol, detalhando chunchos que respingaram em Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal e autoproclamado candidato presidencial, estamos conscientes de que o fluxo não será detido e persistirá, no mínimo, como esperança de que a roubalheira pode até continuar, porém as denúncias serão inevitáveis. Pelo menos esse sombreamento do ambiente não deixa de ser compensação que antes não desfrutávamos.

Exagero pedagógico

Conforme a visão de economistas, a situação fiscal é gravíssima (isso, aliás, há muito tempo), mas que o Posto Ipiranga, Paulo Guedes, estaria exagerando. Qual o papel que se espera do comandante da pasta mais relevante do governo Bolsonaro: o da sobriedade e da sutileza com o vulcão ideológico operando a pleno vapor ou justamente das intervenções oportunistas que afinal possam dar algum resultado no encaminhamento de soluções? A retórica da política, com Bolsonaro em cena, empobreceu muito, posto que mal educada e plena de palavrões. Sacar, por exemplo, que o Brasil é maior do que o abismo, como já dito e repetido, já não sacia sequer os espíritos sofisticados.

O exagero é um método didático-pedagógico também empregado pelos críticos, todavia quando a crise aperta e aparenta restabelecer o cenário recessivo o grito primal pode ganhar sinal de extrema lucidez.

E os gastos?

Até agora fora o sacrifício pessoal de Ratinho, não há sinais de redução de custos para valer em seu governo, já que o corte de secretarias significou pouco mais de R$ 10 milhões anuais quando carecemos de outra medida padrão, o bilhão, para criarmos ambiente respirável. Beto Richa, ao transferir, por exemplo, o pagamento de pouco mais de 70 mil aposentados do Tesouro para a Paranaprevidência, num alcance anual de R$ 2 bilhões, mexeu com os pauzinhos, ainda que descapitalizando fortemente o fundo de pensão do qual emprestara R$ 760 milhões e que vem pagando em prestações do sistema Casas Bahia.

Claro que os exemplos de desapego como os do governador do Paraná ao reduzir os seus salários e de sua equipe têm um efeito moral forte, insuficiente porém para conter demandas dos demais poderes, como se verá agora na sequência dos acontecimentos. Há um setor bem comprometido pelo volume das denúncias do Ministério Público estadual e com penas já lavradas de mais de 90 anos de prisão, que alcança boa parte da hierarquia fiscal, e é sabido que o processo de saneamento é longo e a necessidade urgente de melhorar a receita esbarra nesse tipo de contingência controversa. Sem resolver o problema continuaremos enxugando gelo e encaixotando fumaça.

O fim da mordomia, expresso nas pensões de ex-governadores, ressalta mais o valor moral da renúncia de Ratinho Junior do que qualquer resultado maior para o Tesouro. Para conter o gigantismo adiposo do Estado é preciso muito mais.

Briga de know how

Quando os americanos foram surpreendidos pelos soviéticos na luta espacial responderam com extrema competência para dentro de algum tempo retornar à supremacia. Pois agora às voltas com as tecnologias das redes 5G da China, proibiu, através de ordem executiva de Donald Trump, empresas americanas de adquirirem produtos da Huawei sob o fundamento de que isso ameaça a segurança nacional. E a gente pensa que já viu tudo sobre apogeu e declínio de potências, uma preocupada com o olhar do outro.

Folclore

Quando tanto se fala em tecnologia, e que afetam as transformações da nossa área, dá para lembrar de redatores que faziam primeiramente seus textos à mão para depois de corrigidos serem datilografados e havia os radicais do manuscrito como o poeta e agitador político Barros Cassal (autor do poema satírico "O Barão de Arapoti" caricaturando Moisés Lupion), que escrevia sua coluna "A Ferro e Fogo" no jornal "O Dia" com lápis tinta e como volta e meia salivava a ponta lembrava os monges copistas de Umberto Ecco.

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