Monteiro Lobato imaginou em seu tempo o impossível: um presidente norte-americano negro e de repente chegamos a Barak Obama. Há vasto material jornalístico da rotina cotidiana na previsão de um golpe - e é visível que da parte do governo, por seus impulsos, isso se ratifica e confirmado na postura acomodada da oposição sem bússola -, mas até aqui tem havido reação como a do presidente da Câmara no caso das reformas e por vezes do Judiciário, o que dá uma relativa sustentação institucional. Os dois lados acreditam no grito das ruas e teremos novamente a entediante apuração estatística para ver quem botou mais gente nas manifestações, como se o futuro do país disso dependesse. Há alguma semelhança com 1964 (o desafio para as ruas com o comício da Central do Brasil de João Goulart e a resposta das marchas com Deus e a Família pela Liberdade) e também com as posturas de Jânio e de Collor pelo apoio popular negado. Background de 1964 era a Guerra Fria, que tudo explicaria, e as demais decorriam de estresse da autoridade.

O radicalismo é de tal ordem que se aparecesse um conciliador, com histórico aceitável, pela democracia hoje no país seria olhado com suspeição.

Ritmo estranho

Nem só a Lava Jato entrou em fadiga do material, a despeito dos seus inegáveis feitos, e hoje sofre contestações forçadas pela leitura passional do Intercept Brasil, como se suas revelações fossem mais relevantes do que os nichos de corrupção e as prisões de políticos e empresários e parece que o fluxo judicial, entorpecido, sofre tal influência, como se vê no caso da Publicano, que afastou 74 auditores, alguns hierarcas da fiscalização estadual, e passados cinco anos, a despeito de sentenças de até 90 anos na primeira instância, não há ninguém preso e os indiciados seguem custando fortunas para o governo, representadas pelos salários intocáveis.

O fluxo punitivo está amplamente em revisão nos planos nacional e local, ainda que sem uma sustentação jurídica com um mínimo de segurança.

Pauta bomba

A pauta dos próximos dias na Assembleia Legislativa obriga a oposição a rever seus métodos e voltar-se ao assessoramento de sua atuação pelo Dieese e com isso poder enfrentar a avalanche situacionista em três questões chave: as mudanças na Agepar (qual o seu comportamento nos casos que levaram inclusive Beto Richa à prisão no seu campo específico das pedagiadas) para timbrá-la com um mínimo de autonomia e um máximo de transparência; a questão do recadastramento dos descontos em folha para associações e sindicatos e, sobretudo, a regulação das universidades estaduais com as travas fiscais pretendidas. O corporativismo não vive um bom momento: nem o veemente Ministério Público soube até agora reagir com maturidade ao desfalque de suas atribuições com a nomeação de Augusto Aras ao posto de chefia, desprezando fundamentos como o das listas tríplices.

Dizer que é avanço autoritário do governo é tiro na água, pois o papel de resistência é que dá a medida do segmento provocado e pelo jeito faltou esse tipo de ousadia em gestões anteriores, posto que Michel Temer tenha escolhido a segunda colocada da lista para a Procuradoria e tanto Lula como Dilma respeitaram os rituais corporativos e acabaram enquadrados.

BNDES arrombado

Para os rigores formalistas o BNDES não foi aberto com a decisão do STF, que o obriga a divulgar a remuneração de todos os seus funcionários, mas sim arrombado. Desde 2013 há batalha judicial a respeito, escudando-se o estabelecimento em razões de toda a ordem para que não houvesse tal tipo de abertura. Ainda recentemente o banco se saiu mal sobre uma auditagem caríssima que não clareou coisa alguma e manteve, na perspectiva dos políticos, a caixa preta que muitos dizem existir.

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