Falangismo em ação

Uma ameaça constante ao nosso processo político é o falangismo, pouco importando a sua tonalidade no espectro ideológico, se infra-vermelho ou ultra-violeta. Da mesma forma que em passado recente petistas constrangeram publicamente a jornalista Miriam Leitão, agora um grupo de bolsonaristas impediu que ela participasse, como palestrante, numa feira de livros em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.

Pelo jeito a indisposição que a esquerda tinha relativamente aos meios de comunicação, olhados como obstáculo à sua expansão, ao ponto de incentivarem ao longo do tempo a criação de um Conselho de Comunicação Social para manter a mídia sob vigilância, capta-se o mesmo em relação à direita, empolgada com o seu sucesso nas redes sociais, como se viu em Paraty na barragem tentada contra o jornalista da The Intercept Brasil.

Com a atmosfera tóxica, sob o ponto de vista ideológico, imperante no país e num momento de entredevoramento dos poderes e dos demais agentes políticos e sociais, fica extremamente difícil o exercício da mediação. Se as pendências judiciais são postas em questão, sejam as da Lava Jato ou as da Vaza Jato, ou ainda a relativa ao ato do presidente do STF, Dias Toffoli, que suspendeu investigações sobre Flávio Bolsonaro, caminhamos para um caos em que todos e cada um têm cota de responsabilidade. É um caso diferente de anomia, porque essa é visível na falta de referenciais institucionais, e a de agora é a do seu excesso e transbordamento. Se os poderes se tocarem talvez entendam que o momento é de bombeiros, não de incendiários.

Consumo de novo

A terapia de Michel Temer – aquela com a injeção no mercado das contas inativas do FGTS e PIS-Pasep - para ativar o consumo é cogitada, dentre as medidas para destravar a economia, de forma diferenciada pelo atual governo. Devem ser anunciadas em breve regras pelo ministro Paulo Guedes para a liberação do dinheiro de contas ativas do FGTS e PIS-Pasep em saques que podem chegar a 35% do valor depositado pelo empregador. Saques parciais serão em percentuais variáveis em conformidade com o saldo acumulado pelo trabalhador. É uma do pacote de medidas em estudos para ativar a economia nesse caso específico com a drenagem de R$ 42 bilhões no mercado. Mantida a inércia atual há risco de um novo ciclo de estagnação. Se choques como esse vierem acompanhados de reformas, como a da Previdência, melhor.

Obras inacabadas

Um exemplo de obra inacabada é o que se deu, de forma sistêmica, no governo Beto Richa, com os desvios das construções escolares que aparecem na operação "Quadro Negro". No caso a essência era a de não acabar mesmo, daí a mecânica para os afanos. É verdade que a Secretaria de Educação detectou a anomalia, mas tardiamente, quando o propinoduto já tinha escoado alguns milhões. Proibir inauguração de obras inacabadas, projeto que volta a ser discutido na Assembleia como se deu em 2015, quando foi rejeitada por 23 votos a 19, nem previne o ocorrido na recente roubalheira e de outro lado não evita o monumento à prática do desperdício presente nos bilhões de construções não concluídas. Justa a preocupação com o oba oba das festivas inaugurações com o proselitismo eleitoral, todavia ninguém poderá evitar o corte de fitas, com banda de música e tudo mais, em trechos por exemplo da nossa interminável Linha Verde com suas exaustivas décadas de existência ou de trechos de tantas rodovias. Intenção é generosa, porém de utilidade discutível.

Paradoxos

Um dos fundamentos da força eleitoral bolsonarista é a Lava Jato, por tudo que representa no processo brasileiro, ao lado, é claro, da negação do lulopetismo. Num momento maniqueísta, divisor rígido de bem e mal, vemos por exemplo a direita ficar ao lado da esquerda no caso do ato do presidente do STF na questão do Coaf sob o fundamento de controle dos excessos de Estado, "fascista e policialesco", como afirmou Dias Toffoli e ao mesmo tempo percebemos que tanto a Lava Jato como Greenfield são contrários à interdição. Forças-tarefa argumentam que a decisão contraria recomendações internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e até de terrorismo.

Juros

Há uma piada antiga do banqueiro submetido a um juramento em matéria comportamental e dizendo enfaticamente a expressão "juros" em lugar de juro. Pois agora entre as medidas cogitadas pelo Ministério da Economia para fazer deslanchar a construção civil, altamente empregadora, projeta-se que a Caixa Econômica anuncie redução de 31,5% dos juros aplicados em financiamento imobiliário. Bancos cobram entre 8,5% e 9,5% e a Caixa quer reajustá-los para 5,82% e 6,82%. Aguarda-se apenas o aval do Banco Central.

Folclore

No Brasil, a burocracia se traduz em concreto, prédios próprios ou alugados como se dá com todos órgãos públicos, como ocorreu com a própria Assembleia Legislativa, cuja edificação original foi superada de longe pela complementar. Houve também o incêndio da sede e depois a sua reinauguração. E o Tribunal de Justiça com seu Anexo e posteriormente a compra do que era alugado na rua Mauá, antiga fábrica de piano Essenfelder. Piano piano si va lontano. Devagar se vai ao longe. E ainda existe o projeto do novo centro judiciário na área da antiga Prisão Provisória do Ahu.

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