Esquerda catatônica
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Esquerda catatônica
A despeito da derrota eleitoral e da gravidade das situações criadas por Bolsonaro, percebe-se que a esquerda se mantém catatônica, travada como uma estátua, como se pudesse sair do pesadelo com a liberdade de Lula, cantochão da maioria. O linguista Noan Chomski, uma das maiores referências internacionais e que já se manifestou claramente pela autocrítica do PT como necessidade imperiosa, sugere que a crise na Amazônia tem de ser o ponto de inflexão para a oposição brasileira.
O fato é que a forma como o presidente trata o tema, de maneira confusa e contraditória, como se fosse a voz, a um só tempo, do governo e da oposição, acaba se impondo como se fosse o Brasil acuado com o tal estatuto da internacionalização, o que afinal não ocorre pela primeira vez.
Mesmo exigindo a autocrítica para apontar os desvios de conduta, Chomski lembra que dez anos atrás o Brasil era respeitado no mundo, e Lula um personagem global e com Trump e Jair Bolsonaro chegamos a um ponto em que os danos ambientais ganham irreversibilidade, negando, em aliança, que exista o aquecimento global e adotando políticas que o exacerbam.
A questão amazônica, prato cheio para a direita num surto nacionalista e nativista, deveria constituir-se no fator chave para a arregimentação e um pensamento forte de esquerda que abranja todos os valores em questão e expressamente índios e quilombolas, que o governo ataca na condição de fatores que prejudicam o agronegócio, mormente na questão da demarcação das terras.
Aposta fajuta
Como o clima contra a Lava Jato, depois dos vazamentos e agora também com a primeira derrota de Sergio Moro no STF, o setor mais forte da esquerda, inegavelmente o PT, parece acreditar numa palavra mágica, um Shazam do super-homem se houver a liberação de Lula, algo parecido com o imaginário da presidente do PT, a deputada Gleisi Hofmann, quando previu a morte de muita gente só com a prisão de Lula. Neste início de semana, a defesa de Lula pediu sua libertação centrada nas mensagens vazadas de procuradores ironizando a reação do ex-presidente às mortes da esposa Marisa e do neto, claro que essas formas rudes de desumanidade num ambiente um tanto quanto melodramático podem ter influência no processo. Acreditar que isso sinalizará um novo tempo no Brasil com a inserção do líder popular nos debates em curso é crer no raciocínio de Gleisi, que esperava um banho de sangue simplesmente com a prisão do ex-presidente, o que obviamente não aconteceu. Fazer paralelo com o havido com Getúlio Vargas é esquecer que o martírio, o tiro no peito, nas instalações do Palácio do Catete, teve força política para deter seus adversários que estavam no governo Café Filho e jamais esperariam que o STF não acatasse o pleito para que o presidente da Câmara Federal, Carlos Luz, assumisse o governo. Os comentários vazados, segundo os advogados, provariam o ódio que dominava os procuradores. Como se vê, a defesa se agarra em tudo, notadamente o que implica em emoção.
Moro em queda
A exposição aos vazamentos vem acentuando a queda de credibilidade, que já foi extrema, do ex-juiz Sergio Moro. Teve agora a primeira anulação de sentença que condenou o ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, por corrupção e lavagem de dinheiro. 3 votos a um contra (o do relator Fachin) na Segunda Turma do STF, o que devolve o processo para sequência no primeiro grau. Não foi observada a norma de Bendine ser interrogado depois das delações, o que feria o princípio do contraditório. A força-tarefa reagiu exagerando no sentido de que os demais processos, já julgados, estariam sujeitos a anulação no mesmos fundamentos.
Aperto
O drama não se limita ao que estamos vivendo com os cortes orçamentários, pois a expectativa da Lei de Meios em 2020 caindo em 40% e que os recursos recuem para a faixa de R$ 25 bi a R$ 30 bi. Quem deu os números foi o Secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida. A proposta deve ser encaminhada ao Congresso até sexta-feira, 30.
Unidade
Os três senadores do Paraná decidiram adotar um alinhamento comum, o que passa a ter um sentido originário nas vitórias eleitorais sobre Beto Richa e Roberto Requião. Nem sempre isso aconteceu como na vinda das montadoras em que as oposições de Osmar Dias e Roberto Requião na Comissão de Assuntos Econômicos tentavam devassar os protocolos relativos às concessões de caráter fiscal. O único senador que votou a favor das inovações foi José Eduardo de Andrade Vieira.
Folclore
De todos os saques, que pretendem caricaturar o paranaense, um dos mais badalados é o da autofagia que estaria definida nesse caso, já referido, da chegada das montadoras. A aliança de agora entre Flávio Arns, Oriovisto Guimarães e Alvaro Dias contesta o arquétipo. O curioso é que a nossa política é tão fraca e marcada pela acomodação, que se reclama, em determinados momentos, por pelo menos um pouquinho de autofagia.


