Espelho meu
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de julho de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Espelho meu
O que diz o Datafolha do cenário brasileiro se não repetir os conceitos do jornal "Folha de S.Paulo"? Está lá : 58% acham a conduta de Sergio Moro inadequada, mas enxergam como justa a prisão de Lula. Obviamente, a situação dos dois personagens encara maniqueísmo, o choque do bem e do mal e que o jornal tenta mediar, posto que às vezes marche mais na direção dos políticos de um modo geral desesperados por algo que suste a Lava Jato e os livre de sanções inevitáveis se mais uma vez a farsa brasileira se impuser.
O jornal vende o instituto de pesquisa como independente de quem o mantém, tal qual se consagra que a Polícia Federal independe do Ministério da Justiça, o que não impede a especulação de que se estaria investigando o editor das falas entre juiz e procuradores e vendo sua movimentação bancária no Coaf. O ombudsman pode fazer reparos às conclusões da sondagem, o que não abrange a totalidade da questão, mas o fato é que são vasos comunicantes. Ao acatar como verdadeiras as mensagens do site The Brasil Intercept – o que deveria ser precedido de imensas cautelas – passa a uma quase cruzada contra feitos de Sergio Moro e força-tarefa, aderna, transpõe a linha da imparcialidade, a mesma que acusa de forma sistemática o fluxo judicial, o primeiro na história que atinge a hidra da impunidade e da corrupção que marcam o modo de ser do Brasil institucional. Esse Brasil resistente, ancorado no pecado venial de murmúrios e regougos, é que se desespera em sair dessa, e nela a prisão de Lula é o embaraço mais forte a remover.
-Espelho, espelho meu, há jornal mais equilibrado do que o meu?
Choque institucional
Mais do que a greve de servidores públicos, que sabemos não ser grande coisa, a suspensão do calendário de cursos de graduação pelo Conselho da UEL, que pode ser seguido pelas demais reitorias, submete a postura do governador Ratinho Junior a um choque institucional mais forte do que a causa que o origina. Há muito tempo as universidades estaduais, à falta de argumento mais consistente, jogam com o tema da autonomia.
Se o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão tem autonomia para mexer no calendário escolar, prerrogativa que falta ao governo que a sustenta, seu ato é mais forte, sob qualquer aspecto, do que a greve. Se a medida radical visa preservar estudantes de perdas acadêmicas durante a manutenção da parede sindical, o governo é lançado nas cordas e qualquer atitude se enquadrará, aí sim e claramente, em lesão à autonomia. Aí o debate fica ao gosto dos reitores.
A medida ratifica e vai além da greve e é intervenção inesperada de um confronto para o qual já se adivinhava o futuro de sempre, nenhum.
Craque cabeça
A insistência com que o presidente da República entroniza-se com o futebol só revela uma coisa: não temos craque cabeça como Sócrates, aquele que tocou a democracia corintiana, e Affonsinho, rebelde e articulado. É verdade que não poucos jogadores se identificaram, já na campanha, com a figura do Bolsonaro, aliás expressa numa camisa que lembrava em tudo a da seleção e que marcou presença nos agitos populares desde 2013.
Essa presença do presidente é indevida, não apenas protocolarmente, para tirar da prática esportiva a presença incômoda da política e levada à exacerbação populista. Na Copa no Brasil, tivemos a reação do público vaiando e xingando a presidente Dilma Roussef com palavrões pesados, e no passado remoto o maior líder popular do Brasil contemporâneo, Getúlio Vargas, levou uma vaia no Pacaembu do proletariado e outra dos ricos e bacanas no Grande Prêmio Brasil do Jockey Club do Rio de Janeiro.
Não há espaço aqui, pelo menos no momento, para uma atitude como a da melhor jogadora e artilheira da Copa do Mundo Feminina, a atacante norte-americana Megan Rapinoe, militante e líder de movimentos pela diversidade, que disse recusar-se a ir à Casa Branca por não concordar com Trump de forma política e ideológica. Claro que Bolsonaro teve o bônus dos aplausos e o ônus das vaias, a que submeteu também o seu ministro da Justiça ao testá-lo no juízo da massa como se estivesse no Coliseu romano.
Devolução
Em função dos desvios da Operação Rádio Patrulha a empresa Ouro Verde Locação e Serviço devolveu semana passada R$16 milhões do acordo de leniência que prevê ao final pagamento, entre ressarcimento e multas, um total de R$ 33 milhões, 186 mil e 800. Esse acordo dá a entender que os demais envolvidos dificilmente escapam. Será que nos habituaremos a isso como norma ou assistiremos à revanche dos políticos, organizados como nunca, temendo o juízo final? Daí a histeria com a Lava Jato e também com o MP estadual.
Folclore
Com apenas um terço da população o apoiando, conforme o Datafolha, Jair Bolsonaro não está nem aí com as pesquisas desse ou daquele instituto e confia nos seus relatos nas redes sociais e acha que ao fim de tudo os seus adversários é que continuarão rezando o terço para Lula sair da cadeia.


