Foi dado o sinal da enrolação crônica na criação de comissão paritária para analisar possível reajuste salarial do funcionalismo estadual. No meio dos debates vai aparecer nova advertência do Tribunal de Contas de que o limite prudencial de gastos com pessoal extrapolou. Ocorre que esse dispêndio, mesmo na inércia, cresce com quinquênios e licenças prêmio, isso quando não há demanda funcional por atrasados, tal qual se deu com o volume de progressões e promoções, usado como fator para impor o congelamento.

Dessa feita o fórum dos servidores deixou claro que não está disposto a fazer concessões, ainda que tenha entendido que a greve desgasta demais e o poder sindical percebeu que nem sempre a família dos estudantes concorda com suas ações e isso é perfeitamente definido na instância pais e mestres. E nem poderia no caso dos que estão no terceiro ano e de olho no vestiba, racionalidade que obriga a refletir.

Percebe-se que o governo está culturalmente habituado a evitar transparência, que afinal abra o jogo para valer e essa deve ser a persistente postura dos trabalhadores, respaldando a comissão com gente entendida em econometria e administração e, se possível, dar lições no governo afrontando qualquer presunção de soberba e onipotência.

Baixou

Enfim o mantra requiônico quase deu certo: as tarifas do pedágio caíram sem derrubar o sistema por simples decisão judicial, dispensada a discurseira demagógica. A redução do encargo pela Viapar e Caminhos do Paraná, aplicada a partir de quarta-ferira (30), mostra apenas que teremos, em função das investigações, novos casos também de ajuste administrativo com a perda dos anéis para salvar os dedos. A sórdida aparência de normalidade que regulava esse tipo de relação ocultava a roubalheira de alguns gênios do empreendedorismo alternativo que aparecem nas descobertas da Lava Jato na operação "Integração" e em outras situações como a da patrulha rural, que pode em sua extensão atingir outros auxiliares de Beto Richa, ainda servindo o atual governo de Ratinho Junior.

Importante igualmente o acordo de leniência da Rodonorte, que desde sábado passado fez baixar em 30% os pedágios das BRs 376 e 277 e na PR-151. Necessário manter a pressão judicial em todo o sistema, e não apenas no Paraná, para que tenhamos um mínimo de noção do que fazer com as futuras concessões. Por sinal que Ratinho Junior esteve em Brasília em incursões nos ministérios brigando para que estradas estaduais entrem também na futura delegação e com aquele recado adicional: tarifas cortadas pela metade.

Arminha na mão

Bolsonaro quer mudar o Código Penal e garantir a legítima defesa, sem processo judicial, do proprietário rural que sofrer invasão. O que parece um desatino, já que em qualquer caso de legítima defesa ela precisa ser comprovada e que os meios empregados a justificariam, conta com muito apoio em setores obscurantistas da sociedade, tanto aí com em outros absurdos como o da guerra contra os radares do trânsito e a tolerância com multas. Muito do que há de instintivo e primário nessas propostas faz parte do caldo ideológico da campanha eleitoral.

Agora acaba de desmentir o secretário da Receita Federal na criação da Contribuição Previdenciária que levava um jeitinho de CPMF e pegaria igrejas e contrabandistas.

Ainda o dissenso

Em síntese a ideologia básica do bolsonarismo, supostamente centrada na doutrina de Olavo de Carvalho, é a oposição sistemática, radical, a consensos como o da tolerância, diversidade e o rol de tudo aquilo que tem mediado nossas formas de convivência. O fato é que o dissenso ganhou a eleição, traduziu-se inequivocamente como antilulista, e vale-se é claro da Lava Jato, que desmascarou a classe política, incapaz em maioria de sobreviver fora da corrupção. Uma espécie de "silêncio obsequioso" marca o comportamento hoje dos atingidos como Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, que ante a carga de denúncias optam por essa forma de agir, presunção de tudo, menos de inocência.

Há um background psicossocial, cultural, a fundamentar todo esse ceticismo, inclusive contra a democracia. Mostrou a Pew Research Center, em levantamento em 27 nações, com 51% das pessoas descontentes com a democracia, enquanto 45% a avaliam como positiva. No Brasil, 83% dos entrevistados declaram-se insatisfeitos e somente 16% a aprovam. Há dois anos essa sondagem mostrou que apenas 67% estariam descontentes.

Como se vê o bolsonarismo tem fundamentos que vão além da astrologia ou de imersão nas ciências ocultas que já foram perseguidas pelo guru.

Um dos itens da pesquisa no Brasil – se a justiça trata a todos de maneira justa- apenas 25% concordam e 72% discordam, o que não é bom para Lava Jato e Judiciário. No mundo a maioria concorda que políticos são corruptos em 54% e 45% discordam: já no Brasil 42% concordam e 56% discordam. Derrota da Lava Jato, ponto para os processados.

Folclore

O nível político do Brasil se mede pela afirmação de Lula de que quem governa o país é um bando de maluco e com a resposta de Bolsonaro de que foi pior com bando de cachaceiros. É, queiram ou não, a nossa medida intelectual, nosso QI.

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