Enfim, o protesto
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terça-feira, 30 de abril de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Excelente a mobilização sindical dessa segunda (29), mais densa do que a possível resposta oficial que com os recursos exauridos, já com três cartões amarelos do Tribunal de Contas, não tem de onde tirar dinheiro para atender, mesmo que parcelada, a reposição de 16%. Uma placa da manifestação parece profética ao sugerir "que o rato vai seguir o gato", reduzindo o cenário a uma corrida entre Tom e Jerry, botando um molho de humor na demanda, posto que a caricatura de Beto Richa possa ser vista no bom sentido de jovem bem posto, "gatão", e não a de que tenha botado a mão no jarro.
O fato é que até aqui só o governo levou a melhor: do massacre até hoje botou a mão em R$ 8 bilhões do capital da Paranaprevidência, deixou de pagar salários funcionais reajustados em três anos, e como se não bastassem os ganhos orçamentários teve ainda a votação superior a 400 mil votos do autor da operação repressiva, Fernando Francischini, que pelo menos na visão dos seus eleitores foi absolvido. Evidentemente que tudo isso vai piorar com as medidas a serem implantadas pela reforma previdenciária com maior ônus de contribuição.
A continuidade possível do que foi obtido com a manifestação de ontem só tem um meio: o da greve, transitória ou duradoura, sujeita porém a percalços até porque nenhuma das anteriores foi testada fundamente pela circunstância de o governo não ter se valido dos meios ao seu alcance para reprimi-las como o não pagamento dos dias parados. Essa ruptura singela tiraria das pressões existentes o "faz de conta" tanto de um lado como de outro que agem vacinados dessa forma contra desgaste e isso pode ser chamado de tudo, menos de greve.
Atomizando partidos
Frentes parlamentares temáticas como deformação política produzem um efeito atomizador sobre os partidos. E isso ocorre principalmente em clima radicalizado como esse de agora que parece tentar recriar a guerra fria. Em 1960, momento agudo de opções ideológicas, de um lado, a Ação Democrática Parlamentar, que unia de conservadores a liberais, e de outro a Frente Parlamentar Nacionalista, seguidora da pregação getulista do nacional-desenvolvimentismo, ligada ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros, ISEB, como hoje temos o bolsonarismo dependente do guru Olavo de Carvalho. Até abril havia 94 grupos parlamentares no Congresso, quando quatro anos atrás havia 42, e tínhamos apenas a maior parte voltada para questões como doenças ou a defesa de algum minério. Clássicas são as bancadas ruralista e sobretudo a evangélica e determinadas em seus objetivos as caricaturalmente chamadas da bala, pró armamento, e a da bola, que dá cobertura à politicalha dos cartolas do futebol.
Como se já não bastassem fatores de perda identitária dos partidos, que não se enfrenta com mudança nominal como o PPS tentando voo mais abrangente com Cidadania, como se fez lá atrás com a tal sustentabilidade de dona Marina, o que se percebe é que falta aquilo que Bento Munhoz da Rocha reclamava, carência de mística. Partido sem mística é perfeita inutilidade como se viu no artificialismo imposto pela ditadura com Arena e MDB, o qual ainda sobrevive do mesmo jeito e estilo.
Fala do oprimido
Quem responde hoje pela argumentação contábil e econométrica dos barnabés é Cid Cordeiro, do Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos, Dieese, que acha perfeitamente possível atender o reajuste com a alegação de que em 2018 o governo arrecadou R$ 2,2 bilhões a mais do que o orçamento fazendário. Se houvesse o pagamento da inflação dos últimos 12 meses, de 4,8%, segundo ele, o comprometimento com a folha de pessoal chegaria em 44,27% em dezembro, abaixo dos atuais 44,56%, e distante do limite prudencial de 46,55%. Dar tom de esoterismo à argumentação do governo visa sustentar a quadra que convém ao oficialismo. A impressão que dá é que os burocratas do governo estão convencidos de que o funcionalismo se acomodou ao longo desses três anos de congelamento, o que foi desmentido pela mobilização gigante de segunda-feira.
A nossa no bolo
Das refinarias que a Petrobras pretende vender figura a nossa de Araucária, a Refinaria Presidente Vargas. Por sua inserção em nossa economia a inteligentzia da terra muito lutou tanto que o melhor estudo do terceiro polo petroquímico era nosso, mas perdemos a batalha, outra vez, para o Rio Grande do Sul com sua Refinaria Alberto Pasqualini, também listada para venda. Das quinze existentes oito serão vendidas entre 2020 e 2024. É num dado estratégico desse porte que se nota a ausência de uma tonalidade do espectro ideológico, o nacionalismo. Nesse dado até o Roberto Requião faz falta.
Folclore
Até dízimo de Igreja e dinheiro do contrabando pagarão o tributo da CP, Contribuição Previdenciária, no bojo da reforma, que será de O,9% sobre todas as transações financeiras, bancárias ou não e dividida entre quem paga e quem recebe. Oposição vê na medida uma recriação da CMPF. Marcos Cintra, secretário da Receita Federal, mostra a diferença: CMPF era transitória e a CP é permanente.


